sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

PARA ALÉM DE 5ª FEIRA

(Hoje morreu um filho no ventre de sua mãe!)
 “Nesta eleição há vencedores e derrotados. Venceram os que acreditam em Portugal e têm coragem da esperança, os que fizeram campanha a pensar nos portugueses. São vencidos os que preferem a mentira e as calúnias ao debate de ideias.”
Esta é uma das frases finais do discurso de vitória de Cavaco Silva nas presidenciais de 2011. Não obstante ter, na altura, ficado satisfeito com o resultado, este discurso incomodou-me de sobremaneira. O rancor que dele transpira está bem patente naquela frase em que Cavaco considera que ganhou não porque tivesse melhores ideias para o país, mas porque os seus opositores eram todos maus caracteres, e ele ficava acima de tudo e todos, qual flor de lótus na imundície de um pântano.
(Mas hoje morreu um filho no ventre de sua mãe!)
Cavaco Silva viu, durante o seu mandato, caírem nas malhas da Justiça, amigos e correlegionários, sem que antes tivesse desconfiado do que quer que fosse, chegando mesmo a aconselhar os portugueses a confiarem na eficiente gestão de alguns deles. Agora diz em livro que, nas reuniões de 5ª feira com o chefe do governo, desconfiou logo dos negócios do primeiro-ministro com os governantes da Venezuela.
Hoje, uma mãe viu o seu filho morrer-lhe no ventre por falta de assistência, num país que foi paladino do combate à mortalidade infantil. Um sintoma claro, que não oferece sombra de dúvida, do estado a que deixaram chegar o nosso Serviço Nacional de Saúde. O processo não foi repentino: levou algum tempo. Com tanta clarividência que o então Presidente da República teve para com os negócios da Venezuela, foi pena que não lhe restasse a suficiente para prever o destino para onde conduziam o SNS, joia da república portuguesa.
Diz que o livro é para prestar contas aos portugueses. Então onde poderemos ler as chamadas à pedra dos primeiros, segundos, terceiros,… ministros responsáveis pelo estado calamitoso a que chegou o SNS? E onde estava Cavaco Silva às 2ªs, 3ªs, 4ªs e 6ªs feiras?
            Porque hoje morreu um filho no ventre de sua mãe!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

GASTRONOMIA BÍBLICA 1 - FIGOS MELADOS DE EVA


          Decidi iniciar uma rubrica de culinária bíblica e nada melhor para isso do que ir ao princípio. Porque estamos perto do dia dos namorados, calha bem um prato doce preparado pelo amoroso casal do Éden.

"Génesis 1, 29: Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento."
Foi no princípio, depois do fiat lux, que o Senhor Deus plantou um jardim lindíssimo por onde gostava de passear pela brisa da tarde. Por faltarem elementos decorativos ao jardim não pensou em mais nada, senão em lhe prantar uma Eva e um Adão, que são coisas que ficam sempre muito bem num jardim. O senhor Deus, como toda a gente sabe, é vegan e vai daí disse à Eva que só podia cozinhar ervas e frutos. Carne, só a do Adão. A este disse-lhe a mesma coisa e quanto à carne que provasse a da Eva. Só muito tempo depois, quando Noé encalhou a sua arca nas montanhas do Cáucaso, é que foi permitido ao homem e à mulher serem carnívoros, mas isso fica para outro dia.
O que comiam Adão e Eva? De todas as árvores, plantas e ervas que hoje conhecemos a única de que há notícia que existisse no jardim que o Senhor Deus plantou, é a Figueira, pois foi com as folhas desta última que a Eva inventou os primeiros modelos da victoria secret. A história da maçã é uma aldrabice do tradutor grego, que inebriado pela sensualidade do Cântico dos Cânticos da Bíblia, decidiu colocar a maçã entre a serpente e a mulher, sem pedir autorização ao Criador. Portanto, é por força que Eva tenha preparado um prato de figos, deixando que Adão lambesse os dedos...
A receita que aqui deixo é, de fonte fidedigna, exactamente a que Eva cozinhou com uma única excepção: em vez do forno, Eva deixou a secar ao Sol, porque já tinha pedido a Adão que lhe construísse um forno e todos sabemos que quando se pede a um homem que faça alguma coisa, ele fará e não é preciso estar constantemente a lembrar-lho.
Eva chegou-se à figueira, de onde mais tarde tiraria as folhas para se cobrir, e colheu um bom punhado de figos bem fresquinhos e abriu-os ao meio. Porque estava no Jardim do Paraíso, havia por perto uma colmeia de onde retirou o mel e espalhou-o pelos figos. Junto a uma penha virada ao Sol, mesmo ali perto, e por onde se despenhava em graciosa cascata o rio que atravessava o jardim, cresciam ao sol as tímidas hastes de um tomilho que graciosamente foi colhido pelos dedos de Eva, que fez espalhar as suas folhas sobre os figos já ensopados em mel. Então Eva colocou os figos, adoçados em mel e temperados com o tomilho, ao sol quente de verão. O leitor/a, coloque-os sobre a folha de um papel vegetal no tabuleiro do forno, e deixe assar e caramelizar.
Adão provou-os enquanto saboreava, com a vista gulosa, o desenho clássico dos seios da primeira mulher, saídos das mãos do Escultor divino, e não foi pecado nenhum. O caro leitor/a acompanhe (os figos) com um bom queijo de qualidade, gorgonzola por exemplo, e um pouco de presunto, mas só quando tiver a certeza que o Bom Deus esteja distraído, por causa do queijo e do presunto que não eram permitidos no Paraíso vegan e gluten free.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O DIREITO À VIDA E O DIREITO A MORRER

Num mundo em risco de colapsar, lembraram-se mulheres e homens de boa vontade de dirigir à Assembleia da República uma petição sobre o direito a morrer com dignidade, seja lá isso o que for, como se houvesse uma agenda a cumprir. A Assembleia é obrigada a discutir a petição mas não a votá-la. Os deputados, contudo, inchados na importância dos seus cargos, acordaram da sonolência que o aborrecimento do funcionamento da gerigonça, sem contestação nas ruas e nas praças, provocou na sociedade portuguesa, que vive e dorme feliz, acreditando que é o presidente da República quem todos os dias lhe aconchega a roupa e vela junto à cama, qual mãe extremosa.
Querem agora votar, com liberdade de voto (pasme-se), a mudança de um paradigma da sociedade criado ao longo de séculos, só para ficarem com a fama da modernidade da coisa. Os subscritores da petição não se cansam de dizer que é preciso pressa se queremos apanhar o barco da modernidade, pois já “vários países” legislaram sobre o assunto. Vai-se a ver e os vários convertem-se nos 4 mais pequenos países da Europa: Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça, curiosamente os mais ricos, e num da América do Sul, a Colômbia, um dos pobres, e um ou dois estados norte-americanos. Para vários vai alguma distância. Depois vêm com a velha questão religiosa e nós pasmados ante a enorme China que se diz ateia e que ainda não discutiu o assunto.
Sensível ao tema do direito de cada um poder escolher livremente como quer e quando morrer, face a um sofrimento que recusa, não sei, no entanto como se deve legislar e regulamentar tal assunto, para que a livre escolha de cada um não seja a que Ford preconizava para a cor dos seus carros: o cliente tem toda a liberdade de escolher a cor do seu carro, desde que escolha o preto! Num país a braços com a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde parece-me uma obscenidade e futilidade dos senhores deputados em querer discutir este assunto, antes de resolvido o essencial que permitirá a livre escolha. Só com o direito a uma vida condigna garantido se pode falar em livre escolha.
Inseridos numa Europa criadora do Serviço Nacional de Saúde, em que por razões económicas e financeiras se vai recusando exames que podem salvar vidas, querem agora convencer-me que caso a eutanásia seja despenalizada e regulamentada, passando a haver a alternativa de uma morte “digna”, jamais será levantada a questão do gasto do dinheiro dos contribuintes em cuidados paliativos, quando em países civilizados e percursores dos cuidados de saúde para todos, para evitar a morte, se encolhem por causa do déficit!?
Dizem, socorrendo-se da Constituição, que, e passo a citar: “O direito à vida faz parte do património ético da Humanidade e, como tal, está consagrado nas leis da República Portuguesa. O direito a morrer em paz e de acordo com os critérios de dignidade que cada um construiu ao longo da sua vida, também tem de o ser”. E pronto, que fiquemos descansados que o direito à vida está consagrado. O problema é que esse direito, como o da Liberdade, é, de acordo com a Carta das Nações Unidas para os Direitos do Homem, inalienável, isto é, não depende nem pode depender da vontade de quem tem esse direito. Se os subscritores da petição tão bem souberam rodear este problema, ignorando-o, como acreditar que os governos e as sociedades se guiarão sempre por imperativos éticos universais que se estilhaçam com a maior das facilidades, ao sabor da semântica?
O debate que se quer, parte da premissa que deve estar ausente do mesmo, imperativos religiosos. Já Dostoievski nos ensinou a vacuidade de qualquer imperativo ético universal: “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”. Por outras palavras, mesmo que Deus não exista, é necessário inventá-lo, caso contrário tudo será permitido. O século XX encarregou-se de o confirmar.
É por isso que o debate e a legislação sobre este assunto assumem uma importância e extensão tal, que os deputados de hoje não têm competência nem legitimidade para o fazer. Duvido mesmo que metade daqueles senhores tenha alguma vez lido Kant, para agora virem falar-me de imperativos éticos. E sobretudo não votámos na opinião deles mas em programas eleitorais de partidos, pelo que, questões tão radicais nas vidas de todos nós, não podem ficam ao sabor das suas alvares opiniões.

A escolha de algo para ti, a escolha por falta de opção e a escolha de outros por ti, estão ligadas por uma frágil e ténue teia de aranha. Ao menor estremeção a aranha engole a vítima. A vítima és sempre tu. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

PADARIA PORTUGUESA

Minha avó era padeira,
Vendia o pão a vintém,
Agora vende uma asneira,
Nem pão, nem dinheiro tem.
                                        (popular)
Por via da necessidade aumentada que lhe bateu à porta, uma mulher acende todas as semanas o velho forno que tem na aldeia e coze pão, bolos e pão com chouriço, e é ver-nos a fazer bicha (não sou brasileiro) para lhe comprar o pão e os bolos. É que o dito cujo, cinco dias depois continua tão fresco como no dia em que o compro, por artes que só a padeira conhece.
A padeira foge aos impostos e nem sabe qual o lucro que tem, desde que dê para os medicamentos, e vende tudo a um euro, que facilita os trocos. É por isso que esta coisa de chamar portuguesa a uma loja amaricada em elegâncias, e a aparecer na televisão, para vender um alimento que se faz a murro, me passa completamente ao lado.
A tal padeira nem Facebook tem…, mas uma autêntica padaria portuguesa!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O QUE FAZ UM MAU PRESIDENTE?

A eleição de Donald Trump já teve como consequência o alastramento da idiotice de forma semelhante ao vírus da gripe. O facto de o homem poder vir a revelar-se um dos piores presidentes que a América teve, senão o pior, não torna Obama o melhor, como por aí já se vai lendo e escrevendo (não nos esqueçamos nunca que foi a abstenção da “esquerda” que pôs Trump na Casa Branca). E depois vem o clamor contra o nepotismo, a relação com as mulheres, o mau gosto, a falta de dons de oratória…, etc. Como se Kennedy (esse sim, um dos melhores presidentes, diversas vezes posto à prova) não tivesse sido o campeão do nepotismo, das dúvidas sobre as origens da fortuna familiar e dos escândalos sexuais.
Falar das coisas acessórias só serve para desviar a atenção das essenciais. A má educação de Trump, a falta de cavalheirismo para com a mulher (que sabia muito bem com quem casava), as amantes ou supostas amantes, o mau gosto, a fortuna duvidosa, são acessórios que não o fazem, necessariamente, um mau presidente, como o oposto não fizeram um bom, apesar do que se diz. Há coisas demasiado importantes e perigosas na forma de fazer política de Trump que deviam merecer a nossa melhor atenção. O resto é matéria para desviar atenções, não se vá dar o caso de se descobrir que Trump partilha algumas ideias da esquerda bem-pensante (anti-NATO, anti-Europa, nacional é que é bom…). Menosprezar Trump e trata-lo como mentecapto será a pior das atitudes para quem o quer combater, beneficiando-o aos olhos dos americanos que não leem a imprensa europeia e nova iorquina, e que são a maioria.
Uma das ideias de Trump que lhe tem valido maiores ataques é a do muro na fronteira entre os EUA e o México. Enche-se a boca com comparações com outros muros, nomeadamente o de Berlim, como se os muros de uma fortaleza se comparassem aos de uma prisão! O muro na fronteira com o México é uma ideia que começou com Clinton, concretizada em parte por Bush. Um terço daquela fronteira está já murado com a aprovação de Obama e Clinton. Só o excessivo custo do mesmo, para que se torne eficaz, tem impedido a sua concretização. Foi o dinheiro que impediu a sua construção e não as boas intenções dos “bons” presidentes que nunca deixaram de o querer construir. Por isso Trump enche a boca com a boutade de que serão os mexicanos a pagá-lo, valendo-lhe o ódio dos críticos que ainda não tiveram olhos para ver o que já se construiu, enquanto se esquecem que em Melilla mantemos um forte muro para proteger a Europa de imigrantes indesejáveis.
Não me parece que a solução para o problema migratório do México para os EUA passe pela construção de um bom ou mau muro, mas este será certamente muito mais barato e mais fácil do que as políticas necessárias para a resolução do problema, desde logo libertar o México do absoluto controlo dos barões da droga, e nisso têm os EUA o principal papel (leia-se o que Bolaño escreveu sobre o assunto). Se Trump conseguisse (e quisesse) resolver esse problema tornar-se-ia certamente num dos melhores presidentes dos EUA, apesar do mau gosto, dos escândalos e da “grunhice”.

Trump será um mau presidente por causa do ambiente, do Médio Oriente, do voluntarismo irracional, do proteccionismo, da falta de apoio aos mais necessitados, da desregulação das empresas, da tortura, das listas e da corrida ao armamento. A construção de um muro é o menor dos problemas e pouco afectará a vida dos mexicanos e dos americanos, para além do desbaratamento do erário público, enquanto que o proteccionismo, que deixará os sindicatos americanos contentes e muita gente deste lado do mar a concordar com a cabeça, será terrível para os países periféricos como o México e que dependem do mercado americano.
imagem daqui:
https://goo.gl/images/GF362S


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ENCANTADOR DE SERPENTES


Passos Coelho tem razão quando diz que não tem de ser muleta do governo: Costa propôs-se a governar desprezando o apoio do PSD e negando-lhe o apoio para que governasse, aliando-se com partidos que têm da economia e da Europa ideias que se distanciam das do PS como Fátima de Meca. É justo que peregrine agora sozinho, escolhendo o santuário que mais lhe convém. (A referência a Fátima nada tem a ver com o facto de a Câmara de Ourém poder agora fazer obras de milhões de euros por ajuste directo só porque o Papa Francisco se lembrou de a visitar em ano de eleições, quando todos sabem que é preciso preparar a rotunda dos pastorinhos para resistir às invectivas do padre Mário da Lixa e do músico Pedro Barroso).
 Passos Coelho é incoerente porque recusa agora uma medida que antes adoptou. Incoerência, aliás, igualzinha à de Costa que agora propõe uma medida que, em concertação com a esquerda, disse que não tomaria, fiando-se que podia ter parceiro com quem recusara concertação. Não fosse a falta de jeito de um e o atrevimento de outro e diríamos que foram separados à nascença.
A diferença entre um e outro está na comunicação e na apresentação, ou não vivêssemos nós numa sociedade do espetáculo, onde o primeiro-ministro assume por inteiro a presença cénica de um corifeu, por isso Coelho lhe chamou “encantador de serpentes”, sem nenhuma alusão irónica às suas origens ou aos turbantes. Mas tal como no teatro o actor mais experimentado engole os outros, Passos arrisca-se a ser servido à la sauce moutarde: querendo fugir do charme do encantador, deixa-se engolir pela serpente, descobrindo, tarde demais, que serpente e encantador são um só. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O QUE DEVO A MÁRIO SOARES?

Preserva-te da linguagem enganosa, afasta de ti a maledicência. (provérbios 4, 24)
Conheço bem os retornados porque sou um deles. E, como eles, vivi durante o tempo que estudei em quartos de pensões pagos pelo IARN. Porque era muito jovem ao tempo da descolonização, tinha um mundo a conquistar e nada a perder (nunca esperei heranças), ao contrário dos que, mais velhos, se viram forçados a deixar os frutos de uma vida de trabalho. Ficou para sempre a mágoa dessa gente espoliada de tudo. Mas o que doeu mais, o que ainda dói, não foi a perda mas o ganho do título de colonialistas, racistas, exploradores dos pretos, por quem morriam os jovens da pátria. Isso dói. E dói mais porque é falso. E no topo dos que nos acusam e acusaram, os retornados colocaram Mário Soares, só porque este quis fazer a descolonização a toda a velocidade e, como diz o povo, “cadelas apressadas parem cães cegos”.
Mas é injusto que se culpe Mário Soares dos erros da descolonização e que foram pagos, convém lembrar, não só pelos retornados mas sobretudo pelas populações das ex-colónias que viveram terríveis guerras civis em consequência da péssima descolonização. Se tivéssemos exército que garantisse outra opção, então a pressa de Mário Soares teria sido criminosa, como criminosos foram Salazar e Caetano que não quiseram negociar quando tínhamos força para o fazer. O exército retirou-se para os quartéis e para os gabinetes da política. Aquilo que podia ser uma má opção transformou-se na única saída, e os retornados são por isso injustos com Mário Soares.
(Sobre tubarões e bandeiras pisadas, rasgadas ou queimadas, não me pronuncio porque é assunto, ou da ciência biológica marinha ou da psiquiatria. Quanto a dentes de elefantes capazes de derrubar um frágil Cesna, lembro aos incautos e amantes de teorias da conspiração que naquele avião que descolou da Jamba viajavam representantes do PS, do PSD e do CDS. Desconheço se haveria dentes para todos).
Então o que é que eu devo a Mário Soares? O 25 de Abril não, que Soares não foi tido nem achado. Devo-lhe somente a coragem de ter pegado o bicho pelos cornos, transformado um golpe numa revolução que restaurou a ordem constitucional de uma república democrática, pluripartidária e com liberdade de expressão e opinião, coisas que corriam o risco de se perderem em derivas totalitárias. Qualquer homem livre, de qualquer partido, deve isso a Soares, principalmente os da área da Direita democrática que não deviam esquecer o papel impulsionador que Soares teve para a formação em Portugal de uma moderna Democracia Cristã que, com a Social Democracia, é a cofundadora do projeto europeu e do Estado Social. A ele se deve a nossa entrada na Europa, que é o sítio onde eu quero e sempre quis viver. Tudo isso, e não é pouco, lhe devo.
Soares estava longe de ser um santo. Era delegante, desbocado, malcriado, mimado, com tiques de sibarita (como eu), péssimo em finanças, mau governante, mas era alegre, franco, optimista e leal. Discordei muitas vezes dele, e outras tantas me irritei com a sua truculência, mas no fim estava quase sempre certo e eu não. Se lhe reconheço os pecados, reconheço-lhe também as virtudes. Se pouca gente esteve nas ruas a prestar-lhe homenagem nos seus funerais é sinal que o Povo tem as conquistas que ele ajudou a alcançar como garantidas. Mera ilusão. Por isso as honras de funerais de estado, para além de merecidas, são necessárias, a nós que estamos vivos, não aos mortos.