quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ENCANTADOR DE SERPENTES


Passos Coelho tem razão quando diz que não tem de ser muleta do governo: Costa propôs-se a governar desprezando o apoio do PSD e negando-lhe o apoio para que governasse, aliando-se com partidos que têm da economia e da Europa ideias que se distanciam das do PS como Fátima de Meca. É justo que peregrine agora sozinho, escolhendo o santuário que mais lhe convém. (A referência a Fátima nada tem a ver com o facto de a Câmara de Ourém poder agora fazer obras de milhões de euros por ajuste directo só porque o Papa Francisco se lembrou de a visitar em ano de eleições, quando todos sabem que é preciso preparar a rotunda dos pastorinhos para resistir às invectivas do padre Mário da Lixa e do músico Pedro Barroso).
 Passos Coelho é incoerente porque recusa agora uma medida que antes adoptou. Incoerência, aliás, igualzinha à de Costa que agora propõe uma medida que, em concertação com a esquerda, disse que não tomaria, fiando-se que podia ter parceiro com quem recusara concertação. Não fosse a falta de jeito de um e o atrevimento de outro e diríamos que foram separados à nascença.
A diferença entre um e outro está na comunicação e na apresentação, ou não vivêssemos nós numa sociedade do espetáculo, onde o primeiro-ministro assume por inteiro a presença cénica de um corifeu, por isso Coelho lhe chamou “encantador de serpentes”, sem nenhuma alusão irónica às suas origens ou aos turbantes. Mas tal como no teatro o actor mais experimentado engole os outros, Passos arrisca-se a ser servido à la sauce moutarde: querendo fugir do charme do encantador, deixa-se engolir pela serpente, descobrindo, tarde demais, que serpente e encantador são um só. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O QUE DEVO A MÁRIO SOARES?

Preserva-te da linguagem enganosa, afasta de ti a maledicência. (provérbios 4, 24)
Conheço bem os retornados porque sou um deles. E, como eles, vivi durante o tempo que estudei em quartos de pensões pagos pelo IARN. Porque era muito jovem ao tempo da descolonização, tinha um mundo a conquistar e nada a perder (nunca esperei heranças), ao contrário dos que, mais velhos, se viram forçados a deixar os frutos de uma vida de trabalho. Ficou para sempre a mágoa dessa gente espoliada de tudo. Mas o que doeu mais, o que ainda dói, não foi a perda mas o ganho do título de colonialistas, racistas, exploradores dos pretos, por quem morriam os jovens da pátria. Isso dói. E dói mais porque é falso. E no topo dos que nos acusam e acusaram, os retornados colocaram Mário Soares, só porque este quis fazer a descolonização a toda a velocidade e, como diz o povo, “cadelas apressadas parem cães cegos”.
Mas é injusto que se culpe Mário Soares dos erros da descolonização e que foram pagos, convém lembrar, não só pelos retornados mas sobretudo pelas populações das ex-colónias que viveram terríveis guerras civis em consequência da péssima descolonização. Se tivéssemos exército que garantisse outra opção, então a pressa de Mário Soares teria sido criminosa, como criminosos foram Salazar e Caetano que não quiseram negociar quando tínhamos força para o fazer. O exército retirou-se para os quartéis e para os gabinetes da política. Aquilo que podia ser uma má opção transformou-se na única saída, e os retornados são por isso injustos com Mário Soares.
(Sobre tubarões e bandeiras pisadas, rasgadas ou queimadas, não me pronuncio porque é assunto, ou da ciência biológica marinha ou da psiquiatria. Quanto a dentes de elefantes capazes de derrubar um frágil Cesna, lembro aos incautos e amantes de teorias da conspiração que naquele avião que descolou da Jamba viajavam representantes do PS, do PSD e do CDS. Desconheço se haveria dentes para todos).
Então o que é que eu devo a Mário Soares? O 25 de Abril não, que Soares não foi tido nem achado. Devo-lhe somente a coragem de ter pegado o bicho pelos cornos, transformado um golpe numa revolução que restaurou a ordem constitucional de uma república democrática, pluripartidária e com liberdade de expressão e opinião, coisas que corriam o risco de se perderem em derivas totalitárias. Qualquer homem livre, de qualquer partido, deve isso a Soares, principalmente os da área da Direita democrática que não deviam esquecer o papel impulsionador que Soares teve para a formação em Portugal de uma moderna Democracia Cristã que, com a Social Democracia, é a cofundadora do projeto europeu e do Estado Social. A ele se deve a nossa entrada na Europa, que é o sítio onde eu quero e sempre quis viver. Tudo isso, e não é pouco, lhe devo.
Soares estava longe de ser um santo. Era delegante, desbocado, malcriado, mimado, com tiques de sibarita (como eu), péssimo em finanças, mau governante, mas era alegre, franco, optimista e leal. Discordei muitas vezes dele, e outras tantas me irritei com a sua truculência, mas no fim estava quase sempre certo e eu não. Se lhe reconheço os pecados, reconheço-lhe também as virtudes. Se pouca gente esteve nas ruas a prestar-lhe homenagem nos seus funerais é sinal que o Povo tem as conquistas que ele ajudou a alcançar como garantidas. Mera ilusão. Por isso as honras de funerais de estado, para além de merecidas, são necessárias, a nós que estamos vivos, não aos mortos.

sábado, 31 de dezembro de 2016

NÃO DESEJO NADA PARA 2017


Não desejo nada para 2017. Lá diz o ditado: não desejes que Deus pode ouvir e fazer-te a vontade.
Para 2016 desejei gigantes na política contra os pigmeus que por lá pululavam. E gigantes tivemos… mas do lado errado. Do lado certo, que é o meu (claro) continuámos com os pigmeus do costume. O país que é (ainda será?) o mais poderoso do mundo escolheu para novo presidente um desenho de cartoon, e o gigante (mau) Putin, que prepara a aliança com o gigante (também mau) Erdogan, acaba de meter na ordem o pigmeu (bom) Obama: um presidente (pigmeu) que se comportou como o príncipe herdeiro de uma monarquia europeia, esquecendo que era o imperador do mundo!
Ouviste, ó Deus? Porta-Te bem para o ano e não oiças os desejos dos homens.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O NATAL E O SEU MARAVILHAMENTO


Na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2; Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento – Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré: a infância de Jesus, Cascais, Principia, p.62
Há uns natais atrás, escrevi uma crónica brincando com a suposta vontade do Papa Bento XVI em retirar o burro e a vaca do presépio. A pretensa notícia não era mais do que mau jornalismo que cada vez mais vai sendo comum. Para honrar aquele grande Papa, decidi começar por citá-lo, precisamente sobre a representação simbólica daqueles animais no mistério da Natividade.
O Natal é cheio de significado simbólico, onde a tradição religiosa pagã se mistura, com todo o à vontade, à tradição judaico/cristã, como em nenhuma outra festa cristã. O facto deve-se a ter-se feito coincidir a celebração do Natal com as festas do solstício de Inverno, quando acontece a noite mais longa do ano, para depois o Sol começar a subir no horizonte alargando os dias e vencendo as trevas. Surge assim Cristo como alternativa à divindade romana invicti Sollis.
Porque este ano me tornei avô de uma menina maravilhosa, lembrei-me de dar aqui testemunho de uma velha crença de Natal inglesa que a minha avó materna, sul-africana de origem inglesa, nos contava com toda a certeza no olhar, acreditando piamente no que dizia, não titubeando sequer quando a filha, a minha mãe, a confrontava perguntando-lhe se tal tinha visto, uma vez que se criara no campo. A lenda que minha avó nos contava está relatada num livro: The book of Days, de Robert Chambers, que afirma ser uma crença típica da região de Devon e da Cornualha, na Inglaterra.
Contava-nos a avó perante o nosso pasmo admirado e crédulo, que à meia-noite em ponto da véspera de Natal, o gado de todo o mundo se ajoelhava nos estábulos, em louvor do menino que nascera junto deles. Nós, meninos da cidade, mordíamos o lábio perante o sentimento de uma raiva surda, imprópria da época, por não termos a oportunidade de correr a um estábulo para nos maravilhar com o milagre, mesmo sabendo que a meia-noite de serões onde não havia televisão, não eram apropriadas para deslocações fora de casa.
É sempre com grande ternura, lembrando a lenda da avó, que coloco no presépio as figuras da vaca e do burro bem junto do menino, enquanto José e Maria mais afastados tentam perceber o que aqueles animais sem compreensão, tal como as crianças, entenderam tão bem.  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

RESTAURAÇÃO PRECISA-SE


Quando Marcelo Rebelo de Sousa, presidente eleito da república portuguesa se curvou perante a rainha de Inglaterra, eu não gostei. Sendo eu um grande admirador da pessoa de Elizabete II e que nutro simpatia q.b. pelo regime monárquico, não gostei, no entanto, de ver o representante de uma nação curvar-se perante a representante de outra nação. Pela mesma razão me senti ofendido com a birra malcriada dos deputados do Bloco de Esquerda quando se recusaram conceder um gesto de respeito e consideração pela nação espanhola, convidada da nação portuguesa, nas pessoas dos seus representantes. Que não alinham em poderes baseados no nascimento, disseram, esquecendo que Filipe VI não tem poderes para além da representação de um Povo que o é, tal como o rei, baseado na circunstância do nascimento dos que o constituem.
Os deputados do bloco, cujo lugar na casa de uma república nunca referendada com uma constituição também ela não referendada, lhes foi concedido por 10.18% dos votos expressos, ou sejam, 550 945 votos, esqueceram que o rei de Espanha tem a sua legitimidade de representação (e não de poder) no voto expresso por 88.54% dos eleitores espanhóis que referendaram a constituição que previa o regime monárquico, num total de 15 706 078 votos. Esqueceram, por exemplo, que todos os actos do rei são referendados pelo presidente do governo, ou pelo presidente do congresso ou, imagine-se por um ministro que, ao contrário dos antecedentes, não é eleito. Coisa diferente aconteceu em Cuba que, sendo república, seguiu uma transição de poder de estilo monárquico sem qualquer referendo ou votação e sem que beliscasse o sono dos revolucionários portugueses.
Esqueceram-se assim os deputados do Bloco que somos nação por nascimento daí o simbolismo da figura de um rei. É essa circunstância de nascimento que nos permite votar, ao contrário de um estrangeiro que aqui viva, trabalhe e pague impostos. Foi a circunstância de termos nascido em Portugal que nos faz portugueses e que nos impede de votar para sermos espanhóis, por exemplo, porque tal vontade está proibida pela constituição portuguesa. A nossa vontade de ser ou não desta Nação está vedada. É por isso que hoje comemoramos o 1º de Dezembro, dia da restauração da independência. Porque nascemos em Portugal ou de pai ou mãe portugueses.
O dia da restauração da independência não aconteceu por vontade expressa das populações, mas por vontade de uma elite que pôs no poder o representante dos Braganças, família que D. João II tanto combateu ao ponto de condenar à morte, 150 anos antes, o duque de Bragança do tempo, porque o impedia de prosseguir políticas de engrandecimento da nação e da defesa da população explorada pelos privilégios das elites portuguesas. Talvez por isso, o duque de Bragança feito rei, como modo de redimir os erros dos antepassados, tenha entregue a Nação ao cuidado de Nossa Senhora da Conceição entregando-lhe a coroa de Portugal.
Não faço ideia o que pensam sobre a protecção de Nossa Senhora, os que hoje comemoraram e discursaram no largo dos Restauradores (parece que há por aí uns pândegos que querem que o Papa não venha cá prestar homenagem àquela que é rainha de Portugal por força da circunstância de ter havido o 1º de Dezembro, porque eles não acreditam que, sendo rainha, apareça ao Povo em cima das árvores). Sei, contudo, que um senhor que não conheço, disse no seu discurso que sem o 1º de Dezembro de 1640 não teria havido o 25 de Abril. E eu, lembrando o Tarrafal, a censura e a PIDE, pus-me a pensar com os meus botões que bom seria não ter havido razões para o 25 de Abril.
Assim vai a indigência do pensamento das nossas elites e deputados, o que me leva a desejar uma nova restauração das mentalidades presas aos arquétipos revolucionários de um romantismo serôdio retirado do baú do século XIX.

sábado, 26 de novembro de 2016

O PIOR DOS DITADORES


Morreu o pior dos ditadores. O pior, não porque fosse o mais sanguinário, mas porque foi o que mais defraudou a esperança de liberdade de um Povo.

Quando em 1959, Fidel Castro liderou a justa e necessária revolução com que um Povo humilhado queria construir um mundo novo, tirou do poder um ditador para lá colocar outro: ele próprio.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016