sábado, 28 de dezembro de 2013

LÁ FOI, LÁ VEM!


Lá se foi mais um Natal. Votos lamechas, objurgações contra o consumo, piadas patetas dos que, embuchados com as broas castelares, vão dizendo que não passa de um mito ou perguntando com malícia sobre quem era José no meio do triângulo virgem, menino e Deus, dizendo muito pouco sobre o Natal mas muito sobre a sua própria patetice. Tudo como dantes, devidamente misturado com o bacalhau, as filhoses e os coscorões.

          Afinal o Natal é tão somente a celebração de um Deus que se fez menino para provar que é possível salvarmo-nos de nós próprios. Que é possível um mundo justo que não depende desse Deus que se fez menino, mas de nós. É só seguir-lhe o exemplo.
 
Um bom Ano de 2014 para todos, e não se esqueçam de aparecer no dia 1 de Janeiro no Centro Cultural e Congressos de Caldas da Rainha, às 17h00 para mais um concerto de Ano Novo que pede meças ao de Viena. Com a banda do Comércio e Indústria de Caldas da Rainha e os coros da cidade. Acabei de saber que está esgotado mas pode haver desistências e terem sorte.


sábado, 21 de dezembro de 2013

PORQUE UM FILHO NOS FOI DADO


Porque a bota que pisa o solo com arrogância
e a capa empapada em sangue
serão queimadas e serão pasto das chamas.
Porquanto um menino nasceu para nós,
um filho nos foi dado;
tem a soberania sobre os seus ombros,
e o seu nome é:
Conselheiro-Admirável, Deus herói,
Pai-Eterno, Príncipe da paz.
Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites,
sobre o trono de David e sobre o seu reino.
Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça,
desde agora e para sempre.
Assim fará o amor ardente do SENHOR do universo.

                                                                                                 (Isaías 9,4-6)

 Um bom e santo Natal para todos os que têm a paciência de me lerem.
   
  

sábado, 14 de dezembro de 2013

ADVENTO

Como diz o profeta, para que a esperança se faça realidade é preciso robustecer os joelhos para caminhar, e encher o coração de ânimo e coragem para agirmos com as nossas próprias mãos que se farão fortes. Caso contrário a esperança é vã.
Isaías afirmou-o há quase três mil anos anunciando a boa nova, neste magnífico texto que vai ser lido no Domingo. É o meu centésimo post neste blog! Calhou em tempo de Advento…
 
O deserto e a terra árida vão alegrar-se,
a estepe exultará e dará flores belas como narcisos.
Vai cobrir-se de flores
e transbordar de júbilo e de alegria.
Tem a glória do Líbano,
a formosura do monte Carmelo
e da planície de Saron.
Verão a glória do Senhor,
e o esplendor do nosso Deus.
Fortalecei as mãos débeis,
robustecei os joelhos vacilantes.
Dizei aos que têm o coração pusilânime:
«Tomai ânimo, não temais!»
Então se abrirão os olhos do cego,
os ouvidos do surdo ficarão a ouvir,
o coxo saltará como um veado,
e a língua do mudo dará gritos de alegria;
                                                                                 (Isaías 35, 1-6)
 
No vídeo, não estranhem. É mesmo o Messias de Händel numa produção encenada em Viena em 2009.
 


domingo, 8 de dezembro de 2013

SENHORA DA CONCEIÇÃO OU IMACULADA CONCEIÇÃO?

 
O latim do povo nunca foi grande coisa, percebe bem o Dominus vobiscum mas quando titubeia Et cum spiritu tuo, entaramela-se-lhe a língua e sai goliarda. Destas confusões nasce por vezes coisa acertada, como o dia de hoje. Celebra o povo, e eu com ele, o dia de Nossa Senhora da Conceição enquanto a Igreja celebra o dia da Imaculada Conceição. Parecendo que é o mesmo, não é! Embora resulte do mau latim do povo, o certo é que uma é mãe e outra filha.
Existe uma ideia há muito enraizada que falar da imaculada conceição é meter o pecado ao barulho, logo o sexo. É até ocasião para anedotas e risos alvares. No entanto toda a gente sabe que desde que não haja abusos, e dentro das regras impostas, a Igreja não considera o sexo pecado (!). Melhor fazê-lo que ficar abrasado, já dizia S. Paulo que conhecia bem as brasas que nos atormentam, e aconselhava os membros do casal a não se negarem um ao outro.
O assunto prende-se não com sexo, mas com o pecado original, o da desobediência: a ingestão do fruto proibido. Comeram os nossos pais primordiais o fruto do conhecimento. Ou porque estivesse verde ou maduro demais, o certo é que o resultado não foi satisfatório tendo em conta a ignorância que por aí grassa. A única coisa de que tiveram conhecimento foi saberem-se nus e mortais. Consequentemente, perceberem a piada do sexo e já que iam morrer, quanto mais melhor. O que faziam por instinto passaram a fazer por gozo, mas daí a ser pecado vai um grande passo. Certos bispos e padres porém, por terem a perna curta, ameaçam com as chamas do inferno.
Diz a Igreja que Nossa Senhora nasceu, ou antes, foi concebida, logo no ventre de sua mãe, sem o pecado original que fustiga toda a humanidade condenada a pagar pelo crime dos primeiros progenitores. Eram os pais de Nossa Senhora bem casados e sem dívidas ao fisco, logo o sexo que usaram para a conceber era honesto e sem sombra de pecado. Nossa Senhora nasceu isenta do pecado que afecta toda a Humanidade, apesar do sexo que lhe deu origem. Isto é o que significa a Imaculada Conceição: aquela senhora em cima da lua pisando com desprezo a serpente maligna.
Esclarecida a dúvida, onde fica a diferença? Se Nossa Senhora foi concebida, também concebeu, e o povo, que foge das intricadas considerações teológicas como o diabo da cruz, entendeu, e muito bem, que a Senhora da Conceição queria dizer isso mesmo: a mulher que concebe. Isto é, a Mãe. Torna-se assim Nossa Senhora no arquétipo da Mãe, segundo o pensar do povo que não faz ideia do significado do palavrão.
E foi à Senhora da Conceição, à Mãe, que D. João IV, o da Restauração tão falada ultimamente, decidiu ceder a coroa de Portugal para que ela governasse sobre nós como rainha e protectora. E fez o rei muito bem porque Portugal precisa de uma mãe que cuide da Pátria, que os pais que tem tido se revelaram ora ausentes ora padrastos. Uma Mátria e não Pátria, como queria Natália Correia, e lá está a imagem da nossa rainha, no seu paço de Vila Viçosa, em cima da Lua, não filha concebida, mas mãe com seu filho ao colo.
Mais ordenou o rei que os estudantes universitários, antes de se licenciarem, jurassem defender a Imaculada Conceição da Mãe de Deus. A prática caiu em desuso o que explica o estado a que isto chegou. Os licenciados de agora não fazem a mínima ideia do significado de imaculada e a Conceição é uma estagiária boazona que conheceram na queima das fitas. A pressa com que se tiram licenciaturas não dá para exames quanto mais para juramentos…  
O Papa Pio IX, incomodado com a história de o povo ter deixado cair a imaculada para ficar só com a conceição, decidiu pôr fim à confusão e transformou o que era crença em dogma.
Corria o ano de 1854 e as cinzas da revolução francesa encontravam-se finalmente apagadas, pelo que era o mundo um lugar decente e bem frequentado. Havia a guerra da Crimeia, mas ficava longe e não passava de um playground onde a aristocracia europeia descarregava a testosterona. Com tanta decência surgiu nesse ano o partido republicano americano, ainda sem Sarah Palin, que reivindicava uma ideia fracturante da esquerda: o fim da escravatura. Não tinha assim Sua Santidade nada que o preocupasse, pelo que a ideia de Nossa Senhora isenta do pecado original animou os corredores do Vaticano. Tanta animação resultou na Bula Ineffabilis Deus.  
A crença na Imaculada Conceição, isto é, Nossa Senhora concebida e nascida sem a mancha do pecado original, passa a obrigatória para todos os católicos lançando de uma assentada para a excomunhão póstuma S. Tomás de Aquino, S. Bernardo e o papa Bento XIV, que em séculos anteriores tinham achado a ideia disparatada. O povo católico diz que sim, mas o coração mantém a devoção antiga à Senhora da Conceição: à Mãe. Os cristãos ortodoxos, inimigos de novidades como ortodoxos que se prezam, não aceitam. Os protestantes, como de costume, protestam fazendo jus ao nome.
Curiosamente, o Islão já havia afirmado a isenção do pecado em Nossa Senhora muito antes de Pio IX, o que não fazendo do Papa um bom muçulmano fez dele um crente do adágio de que vêm as ajudas de onde menos se espera.
É caso para dizer que não havia necessidade!
 
Fotos: Senhora da Conceição, padroeira de Portugal – Matriz de Vila Viçosa
Imaculada Conceição - basílica de Santa Maria Maior, Bergamo, Itália



domingo, 1 de dezembro de 2013

DIA DA RESTAURAÇÃO DE SER PORTUGUÊS

Têm os Braganças como mãe a bela Inês Peres, filha de Pêro Esteves, um judeu da Guarda. Veio assim a restauração pela mão de um neto de Abraão e de uma filha de espanhóis. É que são portugueses quem luta por nós e não contra nós!
Então quem somos afinal?
Somos filhos de Tubal, que era filho de Jafet, neto de Noé. Iberos nos chamaram como os da pátria Georgiana do longínquo Cáucaso onde encalhou a arca. Somos portanto sobreviventes…
Fomos Celtas, outros filhos de Jafet, e conhecemos gregos e fenícios que confundiam o Mediterrâneo com os estuários do Tejo e do Sado.
Contra os filhos de Eneias, o Troiano, lutamos até à morte pois quando Sertório, general romano, ergueu a espada lusitana, já éramos tão romanos como ele.
Os reis Suevos de Braga confundiam o Minho com o Elba e o Oder, e no Zêzere chorava o godo Wamba as saudades do Danúbio, enquanto no Tejo se passeava o mouro elegante e belo que lhe seduzia as mulheres.
Depois fomos ao mundo e o mundo voltou a nós, e os filhos da Etiópia e do Congo encheram os salões desde Évora a Lisboa.
E o Viriato?
O Viriato é um velho conhecido que encontro por vezes, abismado, junto à estrada da Beira, que não compreende o suevo minhoto nem o mouro algarvio. É um espectro, uma ilusão, porque ser português é ser o mundo inteiro, e eu…
 
… eu e Afonso Henriques caçamos dragões wagnerianos na Burgúndia de seus avós.
… eu oiço bourrées de Bach na chotiça da Estremadura e nas danças de roda do Minho.
… eu e Tomás de Aquino rezamos juntos à Senhora d’Agonia.
… eu e Petrarca encontramo-nos pelo sereno da tarde no Camões.
… eu e a rainha Ginga trocamos juras de amor na língua de Pessoa, comendo cachupa na Brandoa.
… eu e o cacique Tupinambá falamos do barroco do Aleijadinho num terreiro de candomblé, no Monte da Caparica.
… eu medito com o guru Pantadjáli num ashram da Mouraria.
… e eu, nos tugúrios chineses do ópio, sonho como Pessanha esperando ver florir por engano as rosas bravas.
 
E Viriato?...
 
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada. (in Mensagem de F. Pessoa)
 
 


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

PARA QUE SERVE UM MUSEU?... E UNS BRINCOS?!

          Os brincos, porque belos e feiticeiros, são amuletos contra a má sorte. Ao ligarem-nos ao mundo espiritual dão sentido à existência, e o seu valor é garantia para o futuro. Servem para alguma coisa?
           Formosas são as tuas faces entre os brincos, e o teu pescoço com os colares…, diz a Bíblia daquela por quem Salomão se apaixonou. Ainda precisam saber para que servem os brincos? 
           
           Quando Napoleão se preparava para enfrentar o exército dos mamelucos que detinham o poder no Egipto a coberto do império Otomano, vendo as pirâmides nas areias do deserto, incentivou as suas tropas gritando-lhes: Soldados! Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam!
           Ganhou a batalha e o Egipto.
           Napoleão sabia o valor do simbolismo do passado e usou-o para conquistar o presente e construir o futuro. É para isso que servem os museus. Fazer de ponte para que o presente atravesse do passado para o futuro.

          Os pequenos museus das nossas vilas não possuem a porta de Ishtar da Babilónia nem os frisos de mármore do Partenon. As nossas vilas, ao contrário dos sítios onde se guardam aqueles tesouros, são contemporâneas dos persas e dos gregos que fizeram as portas e os frisos, e que as visitavam encantados com as belezas e riquezas que nelas encontravam. E se temos de ir a Madrid para ver no Prado um Velásquez, foi porque numa vila como a nossa nasceu a princesa portuguesa que o tornou possível.
           Os museus das nossas vilas têm a ara romana e a coluna dórica que nos dizem que já invocávamos Júpiter e Apolo, e ecoavam nos trigais e vinhedos os versos de Virgílio, quando Berlim era ainda um pântano onde só se ouvia o coaxar das rãs. Dizem-nos ainda que por aqui se bebia a água dos aquedutos e se viajava nas estradas empedradas de Trajano, quando Moscovo nada mais era que um ponto lamacento de passagem do rio na rota das caravanas. Descobrindo-nos assim no museu da vila, fitaremos, olhos nos olhos, os grandes do mundo.
          Não temos jóias que ofusquem o tesouro de Veneza nem o brilho das sedas de Gengis Khan, mas temos os honestos brincos das mulheres que nos castros das nossas serras encorajavam os guerreiros celtas a combater para sermos o que somos, e que nos inspiram para construirmos o que queremos ser.

Quando discutirmos em Bruxelas havemos de nos lembrar da mó árabe e da beleza curvilínea da relha do arado que no museu da nossa vila vimos. Há-de essa memória aguçar o nosso engenho e imaginação para sabermos exigir os meios para o fabrico do pão de amanhã. Se hoje ainda não conseguimos, foi porque a falta da visão da beleza de um museu gerou filisteus incapazes de negociar com quem se agiganta ouvindo Wagner em Bayreuth.
           Sem as nossas pedras, os nossos ossos e os nossos adornos seríamos ninguém. Como as nossas avós a quem roubassem as arrecadas de ouro pendentes das orelhas, ficaríamos despidos perante a adversidade e a oportunidade.
           Sabermos quem somos e como fomos é importante para criarmos a identidade e a força que precisamos para enfrentar os desafios do futuro, por isso não podemos baixar os braços quando o museu fica deserto. Há que abri-lo. Mudá-lo se preciso for, para ir ao encontro das populações… Para que saibam!
 


sábado, 16 de novembro de 2013

SARAMAGO, NO SEU ANIVERSÁRIO

 
Saramago faz hoje anos. Há quem o deteste e quem o adore. De Saramago gosto mais do artesão que é das letras portuguesas do que do homem que nos quer contar uma história. No Memorial do Convento, contudo, adorei o artesão e o contador de histórias.
          Gosto do Saramago escritor pela força das suas metáforas, mas o homem que foi obnubilou o que escreveu. Nem todos os grandes escritores foram pessoas recomendáveis, Céline é um exemplo, mas interrogavam mais do que afirmavam, e assim impediam o contágio entre o homem e o escritor.
          Não me choca o Saramago iconoclasta mas confesso que nunca lhe achei grande jeito para essa aventura. Para deicida era demasiado pueril. É certo que este é o tempo de um Richard Dawkins e não de um Nietzsche, e por isso falta espessura à época.
          Saramago, por exemplo, na sua ânsia de falar de Deus nunca se atreveu a declará-Lo morto, preferindo denegri-Lo. Esquecia-se do óbvio, e em vez de falar das lutas e angústias dos homens que inventaram deus, falava mal do deus inventado. Se Deus foi inventado pelos homens, nas palavras de Saramago, e sendo esse Deus cruel, como muitas vezes o demonstra o antigo testamento, isso só significa que os homens, cruéis, inventaram um deus à sua imagem e semelhança. Falando mal desse deus, Saramago esqueceu-se que afinal falava mal dos homens.
           Ao tentar atacar Deus, com tanto relato por escolher, falhou completamente o flanco quando usou Caim e o livro do Génesis, um dos livros mais maravilhosos sobre a aventura do Homem. Atentamos então nesse capítulo 4 de um livro que os homens inventaram e vejamos o que esses homens nos quiseram dizer e que Saramago quis usar.
          Todos conhecemos o conto que nos diz que Caim, o primogénito de Adão e Eva, fez uma oferta dos frutos da terra que desagradou a Deus, e que Abel ofertou cordeiros gordos e suculentos do seu rebanho para muito agrado do mesmo Deus. Caim não gostou da falta de isenção de Deus e matou Abel que, ainda não disse, era irmão de Caim, também filho de Adão e Eva porque a curva de Malthus começava então o seu caminho. Isto é o que em regra todos sabem mas esperaria que Saramago soubesse um pouco mais. Soubesse por exemplo que Deus, inventado ou não, dando pela falta de Abel e encontrando Caim lhe perguntou:
-       Onde está o teu irmão Abel?
…e que Caim se apressou a responder com outra pergunta, como em regra fazem quem tem algo a esconder:
-      Sou, por ventura, guarda do meu irmão?
           E quem era então Abel, irmão de Caim? E porquê que os seus sacrifícios caíam no goto do Senhor? Saramago tinha obrigação de saber, mas não o demonstrou.
           Abel tinha como meio de subsistência o gado que crescia de acordo com a vontade da natureza e que se criava nos pastos verdes regados pelas gotas do orvalho das manhãs. Por isso Abel, que não possuía a terra, agradecia com o coração, como dizia santo Agostinho, a dádiva da natureza. Abel era o proto chefe índio Seattle, que a ONU transformou num ícone da defesa do ambiente (…a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra…). Era assim a modos que membro honorário do partido dos verdes que o partido comunista gosta de levar à ilharga, mas Saramago não viu isso.
           E Caim, que se recusou a ser guarda de Abel para se tornar no seu assassino, quem era?
           Um fazendeiro. O homem que julga possuir a terra de onde tira o alimento. O homem que fundou uma cidade e cujos filhos fabricaram todos os instrumentos de cobre e ferro e as armas que matam (Gn 4, 17.22). É o grande proprietário que cria assalariados e deixa morrer à fome o irmão que não produz, porque não se julga guarda do seu irmão. O homem para quem tudo tem um preço e por isso a sua oferta não agradou. Em suma, é o burguês capitalista, mas Saramago não viu isso.
            Saramago não viu a história do Homem, das suas lutas, ambições e frustrações e o caminho que o conto apontava como do agrado de Deus: a solidariedade entre todos, como irmãos. O socialismo?!.
            Não viu porque se cegou com o deus inventado. Ao querer culpar Deus, desculpou o capitalista; Saramago, o comunista.
             Saramago escreveu outro grande livro: O ensaio sobre a cegueira. Quem melhor que um cego para escrever sobre a cegueira?

 
 Gravura de autor desconhecido, existente na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América.

sábado, 9 de novembro de 2013

CUNHAL E O MURO DE BERLIM

 

O muro de Berlim caiu faz hoje 24 anos. Foi derrubado por todos aqueles que se atreveram a passá-lo e deram a vida por isso. Se não fosse a sua coragem e o seu amor à liberdade, talvez hoje ainda lá estivesse. O que se pode dizer mais?

Cunhal faria amanhã 100 anos. Não sei se justificou o muro, mas o partido a que presidiu e o seu órgão de informação justificaram, como justificaram os crimes do regime que defendiam. Pior, expulsaram quem não se calou e não justificou!

A luta pelos seus ideais não podia justificar o silêncio e muito menos a defesa dos atentados à liberdade, como o daquele muro que caiu.

É difícil falar mal de Cunhal. Como formigas ou vermes somos esmagados pela bota enorme que é a história da sua vida. A sua coragem e o seu desprendimento calam-me toda a revolta contra os seus crimes, que me estala no peito.

E que crimes cometeu Cunhal? O silêncio sobre os crimes que os regimes comunistas cometeram é o seu maior e, talvez, o seu único crime.

Pecado grande é o da omissão. Talvez um dos maiores.

Camus, que também nasceu há 100 anos, um comunista que não mentiu nem silenciou, disse, ao receber o Nobel, que havia dois compromissos difíceis de manter, mas ambos imperativos: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão. Cunhal cumpriu um desses imperativos.

Cunhal talvez mereça que falem bem dele. Eu não consigo.



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PRINCESA QUE VESTE NA ZARA NÃO É COOL, É PINDÉRICA

 
É sabido que a França atingiu um pico de prosperidade no reinado de Luís XIV, o rei absoluto. De entre as industrias que se desenvolveram, a do luxo e da moda devem tudo ao rei que gostava de se mascarar de Sol e que obrigava a nobreza a trajar “decentemente”, contrariando a mesquinhez e sovinice de alguns. Moliére, um protegido do rei amante das artes, retratou, em “O avarento”, o tipo de gente rica que não gasta o que tem.
Desse mal, da sovinice, não sofria o rei Luís que resolveu criar um novo cargo na corte: Grand Maitre de la garderobe du roi. O oficial do cargo tinha como única e exclusiva função cuidar do guarda-roupa de sua Majestade.
Se o rei desenvolvia as artes e os ofícios, tornando-se seu mecenas, então que toda a nobreza lhe seguisse o exemplo. Ordenou que toda a nobreza passasse a estar sempre na moda. Os nobres, aflitos, passaram a gastar balúrdios com casacas, vestidos, rendas, sapatos, botas, perucas, luvas, etc., mais o perfume que devia mudar todos os dias… E porque tais ataviados e arrebiques não se dão bem com o pó das ruas, lá vinha carruagem condigna mais a parelha de luzidios alazões, para alegria de correeiros, ferreiros e outros mecânicos que tais!
A indústria agradeceu e encarregou-se de inventar sempre novas modas para desespero dos chefes de família.
O rei, magnânimo, não ficou por ali. Decidiu que qualquer pessoa, independentemente da sua classe social, podia entrar nos jardins de Versalhes desde que vestida à moda e com o luxo que convinha ao local, podendo assim admirar os numerosos eventos aí ocorridos, o carrossel, e até ver o rei passeando com Madame de Maintenon toda de seda chiffon!
Escusado será dizer ao leitor, amargurado com a austeridade, e desabituado do brilho de lantejoulas e lamés, que o incremento da indústria foi enorme, sendo a moda e o luxo um dos legados que dá lucro à França e alimenta e dá trabalho a muito pobre por esse mundo fora.
O rei subsidiava assim a industria obrigando a nobreza e a classe média a consumir. Alimentando a vaidade, evitava o ressentimento dos ricos face a este imposto disfarçado.
Leio agora que sua majestade, a rainha das Espanhas, não dá festa de aniversário por causa da crise, e que a princesa parvenu inglesa veste na Zara e, pasme-se, repete sem vergonha a toilette, como vulgar menina do shoping.
Perde a indústria o cliente e os outros, vendo-se assim desobrigados, guardam o dinheiro levando à ruína comerciantes e industriais, criando mais desemprego.
Os media exultam e, no meio da demagogia, exultam os pobres que julgam ver os ricos com eles irmanados. Nada mais falso.
O que é que nós, os pobres, ganhamos com isso? Ou mais correctamente: O que é que vamos perder com isso? Porque, ou acabamos com os ricos ou obrigamo-los a gastar o que têm.  
A função de uma princesa é alimentar os nossos sonhos. Com isso gera emprego e diverte-nos. Não cumprindo a função, só resta aos pobres cortar-lhes na renda, para não lhes cortar noutras coisas…
Não é poupando que um rico se faz pobre, mas gastando.
O povo que lhes paga a renda, deve exigir-lhes o cumprimento do que é próprio à função, porque um modelo Dior numa princesa é uniforme de estado! A última coisa que precisamos para sair da crise é uma princesa pindérica.
Basta de austeridade. Abaixo as princesas da zara.
 
Notícia dos media: Kate Midleton veste modelo da Zara.



domingo, 3 de novembro de 2013

O OURO DA NAÇÃO

É um facto, que escapa a qualquer consideração ética, que as nações vitoriosas de uma guerra executam o saque das nações derrotadas. No fim da segunda guerra não foi diferente, por isso, os EUA, logo após o fim da guerra, deram início ao saque a que chamariam: Operation Paperclip. Consistiu a operação em levar para o território americano todos os cientistas alemães que eram alguém no mundo da ciência e da técnica, e foram muitos. Centenas, senão milhares. Questões de ordem moral como a participação no terror nazi foram torneadas, esquecidas, apagadas. O que interessava era o saque do saber alemão. O resultado é conhecido: a supremacia na corrida espacial e no armamento, tornando a América numa potência mundial do pós guerra.
Quando Estaline se deu conta do saque americano, apesar da entrada triunfante das tropas russas em Berlim, espumou de raiva. Distraído a saquear para a União Soviética o equipamento da forte indústria alemã que depois havia de apodrecer por falta de inteligência que a fizesse funcionar, só então percebeu que o verdadeiro ouro das nações é o saber que se esconde nas pessoas.
Portugal viveu momentos semelhantes na sua história: A expulsão dos judeus no reinado de D. Manuel foi um desses momentos. Basta pensar como Espinosa poderia ter nascido português. A expulsão dos jesuítas que foram brilhar nas universidades europeias foi outro momento onde a luta pelo poder se sobrepôs aos interesses da nação, mas o momento simbólico da morte da pátria deu-se quando a elite do país ficou para sempre nos campos do Norte de África.
Porque não temos governo mas um bando de meninos a quem os pais vestiram casaco como para um casamento ou baptizado, como diz António Lobo Antunes, não houve política capaz de impedir que a geração mais bem preparada se exilasse, agora a bordo das aeronaves lowcost. O trágico é que houve governantes que pensaram que isso era bom porque o nosso nome ficaria bem visto lá fora e aprenderíamos a sair da nossa zona de conforto. Seria bom se partissem para regressar com novos saberes com o país a recebê-los de braços abertos. Não foi e não será o caso.
Mais trágico é haver quem contraponha com os emigrantes reformados ricos que para cá vêm gastar o dinheiro, que nós, transformados em estalajadeiros, recebemos de mão estendida, enquanto nos seus países se fabrica prosperidade à custa do nosso saber.
A nossa tragédia tem já um guião que nem a lista de vinhos com que se parece o governo, nas palavras irónicas de Lobo Antunes (Aguiar Branco, Poiares Maduro…), impediram que se parecesse com um trabalho de estudante do programa Erasmo, onde a única ciência visível terá sido o hábil uso do programa Word, fazendo-o parecer maior do que é.
Nenhuma reforma do estado terá sucesso se não for capaz de conseguir estancar a hemorragia e fazer retornar à pátria o ouro da nação.
 


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CHAMEM MISS MARPLE


Os ingleses lembram-se agora de terem visto uns ciganos a rondar o resort no Algarve de onde desapareceu a Maddie. Isto depois de lerem a notícia de uma menina loira no meio de ciganos na Grécia e de outra menina loira, desta vez num acampamento cigano na Irlanda. Entretanto descobriu-se que a menina da Grécia tinha sido vendida por uma miserável família búlgara e a irlandesa era mesmo filha dos ciganos, embora se oiça em surdina pelo acampamento, cantado à boca pequena, o sucesso musical: “ mas quem será, mas quem será o pai da criança”.

Agora entendo Agatha Christie: quando queria resolver um dos seus mistérios desprezava a Scotland Yard e chamava uma velhinha de uma aldeia do Hampshire, ou um emigrante belga excêntrico.

Se não fosse trágico, era capaz de ter piada.
 
 
                    

sábado, 26 de outubro de 2013

BARBARIDADES

 
 
 
Bárbara Guimarães, que é jornalista e conhece bem o meio, emitiu um comunicado à imprensa onde pede “que respeitem e salvaguardem, neste momento difícil, a privacidade da minha vida e a dos meus filhos.”
Estúpido que eu sou. Então não é que para termos privacidade a primeira coisa que devemos fazer é um comunicado à imprensa? Por isso é que não me largam a porta, raios.
A Bárbara é que sabe!
 
 
Imagem do filme: Citizen Kane de Orson Wells


domingo, 20 de outubro de 2013

ASSIM NÃO DÁ

 

Piada do dia:
“Se Gaspar fosse ministro o OE não seria tão mau”, disse Basílio Horta no intervalo entre uma queijada e um travesseiro.
 
Portugal está sob chantagem: ou fazemos o que mandam os sequestradores, ou morremos.
Ou então sermos como a Coreia do Norte: vivermos só com o que temos. Se eles conseguem nós conseguimos. Desde que não chova! Foi só por que nos tivemos de refugiar da chuva que ontem não conseguimos parar o porto de Lisboa. Somos um país de Sol: seremos a Coreia do Norte, mas com Sol!
Podíamos tentar o bluff. Assustar de tal modo os sequestradores fazendo-os pensar que se nos matarem será pior para eles. Para isso são necessárias manifestações, não contra o governo, mas fingindo ser contra, para que o governo tenha espaço de manobra para lhes poder dizer: Vêm? Alarguem lá a corda senão ninguém os segura. Por isso atravessar a ponte de autocarro não faz o efeito desejado.
Deitar a ponte abaixo seria mais eficaz! Mas depois como é que vamos à festa do Avante ver a banca dos partidos irmãos como o MPLA e o partido comunista chinês que são agora donos da hipoteca e por isso aliados dos sequestradores?
O governo, se fosse efectivamente patriota demitia-se. Assustava os mercados? Ainda bem. É isso mesmo que se pretende: Assustar os donos do capital. O pior é que o susto atingiria também o meu vizinho Tózé e temo que não aguentasse.
A CGTP, se ainda quisesse, prestava a todos um grande serviço dirigindo a sua acção contra os verdadeiros patrões. O governo e o capataz da quinta, que por ter estado a a ver navios no canal do Panamá descobriu agora que Sines podia ser a porta de entrada da Europa (então não foi para isso que aquele elefante foi construído, cum raio?), não passam de serventes numa quinta hipotecada. Mas para isso era preciso que o PCP deixasse, mais os países irmãos.
De caminho não seria má ideia mandar passear para a praia das maçãs aquele senhor que decidiu viver a vida ao contrário, fazendo-se de esquerda depois de velho, e que anda a dizer que se fosse com o Gaspar não seria tão mau. É que isto está mau por causa de senhores como ele. Como castigo, mandaram-no comer queijadas.
Assim não dá!
 
Foto: “Glu, glu, glu” de Ana Maria Maiolino


terça-feira, 15 de outubro de 2013

PORTUGAL EM 2º LUGAR NOS DOIDOS MUNDIAIS

 

O mais recente relatório sobre saúde mental diz que somos os mais doidos da Europa mas os segundos no Mundo (não se pode ter tudo)!

O partido comunista português, sempre preocupado com a Constituição e que considera Paulo Portas um malabarista, nada disse sobre as boutades de Machete e a sua interferência no poder judicial no caso de Angola, cujo presidente o partido comunista continua a considerar ser o líder de um partido irmão?!

Mário Soares foi ao cinema ver o filme sobre Hannah Arendt e não se arrependeu. Na sua crónica, Mário Soares informa que foi com a mulher que gosta muito dessa judia alemã anti nazi que se refugiou na América, depois de ter conhecido um campo de concentração em que os nazis torturavam os judeus, levando-os à morte... Mário Soares, que chamou delinquentes aos ministros do governo, diz ainda que gosta muito do Obama e do Xico de quem lê todos os livros?!. É muito bonzinho o Xico e a igreja portuguesa devia seguir-lhe o exemplo, diz o ex-presidente. Depois falou do Camus que faria 100 anos e que os jovens não conhecem e que ele também não conheceu mas em compensação conheceu o Sartre e a Simone que escreveu um livro inesquecível. Ficámos ainda a saber que teme pela vida do Xico, que o Obama se reconciliou com o Irão e com o Putin valendo-se da ajuda preciosa do Kerry (sic), e que o filme sobre a Hannah exibe-se no El Corte Inglês.

A Scotland Yard diz que o suspeito do rapto de Maddie é de raça branca, tem idade entre os 20 e 40 anos, cabelo castanho curto, estatura média e cara sem barba. Fiquei com a certeza de o ter visto em algum lado… Como dizia o outro: é só fazer as contas!

O governo diz que quem ganha 600 euros pertence a uma classe média sumptuária e por isso Arménio Carlos quer correr com os indignados, isto é correr junto com eles, não contra eles (língua difícil, esta!) na ponte sobre o Tejo entre Almada e Alcântara. O governo não deixa mas deixa na Vasco da Gama. O líder sindical diz que não serve e que tem de ser na ponte de Almada à sombra do Cristo Rei, porque foi mandada fazer pelo Salazar e por isso é um símbolo de Abril… não? Não foi isto que disse? Peço desculpa mas depois de ler a crónica de Mário Soares, já não sei o que digo.

Bruno de Carvalho sabe o que diz, e diz que o Sporting já devia estar em primeiro lugar se não fossem as arbitragens.

Eu digo que Portugal já devia estar em primeiro lugar no ranking mundial dos doidos se não fosse a falta de verbas para pagar os estudos.

 
 Imagem: lápis sobre papel, 2008 de Fran Meana, colecção CGAC



domingo, 13 de outubro de 2013

QUEM NÃO SABE COMEMORAR FERIADOS NÃO OS MERECE

 

É verdade que em Outubro estive em Berlim e no dia três foi feriado. Uma quinta-feira e porque o dia da reunificação da Alemanha era importante, não se comemorou nem à sexta nem à segunda, mas no dia em que caiu aquele três de Outubro, ao contrário do que nos querem impingir.

Discursos longos e entediantes, paradas militares com capacetes pontiagudos brilhando ao sol frio de Outono? Não, que raio. Era o três de Outubro, não o cinco. Em vez disso, palco enorme para concertos de música popular escondendo a elegância clássica das portas de Brandeburgo. Ali, juntinho ao Tiergarten, barracas de feira, mesas e bancos de pau, para que o povo possa beber cerveja, comer pretzel, wurst e chucrute. Estava frio, choveria, não choveria, que importa? Os feriados são da rua.

Na noite anterior, a Alexanderplatz transformou-se em terreiro ao ar livre para uma inusitada Oktoberfest, com os rapazes vestindo os tradicionais calções e as raparigas as blusas de manga curta desafiando o frio e aquecendo-se com canecas de cerveja e jogos de força na feira. A longa fila frente às casas de banho improvisadas asseguravam que a festa estava ao rubro. Houve até quem se aproveitasse da circunstância para fazer “ponte”, um pecado meridional.

          Em Portugal o cinco de Outubro, dia da fundação do reino de Portugal e da implantação desta república, deixou de ser feriado mas não deixou de haver razões para o comemorar. Que diabo, calhou ao Sábado. Uma barraquinha de caldo verde no Rossio vinha mesmo a calhar no frio de Lisboa, e se ainda não havia vinho novo, bebessem o velho antes que azedasse.

          Em vez disso: solene e fúnebre homenagem aos heróis da rotunda. Outros, preocupados com a vida, fizeram uma marcha contra a morte dos fetos. Iniciativas louváveis mas que anteciparam o dia de defuntos.

Quem não sabe comemorar feriados não os merece!



terça-feira, 1 de outubro de 2013

FOMOS A VOTOS E HOJE É DIA MUNDIAL DA MÚSICA

Se a expressão: “o Povo falou nas urnas” faz algum sentido, então nestas eleições a verdade desse axioma foi demonstrada. Mais do que um castigo ao governo, o que seria normal, assistiu-se a um castigo aos partidos. Provou-se que as pessoas votam mais pelos afectos do que pelas razões ideológicas.
Porto, Braga, Oeiras e Guarda, aí estão a demonstrá-lo juntamente com aquele segundo lugar de Sintra. O caso de Oeiras merecia um estudo aprofundado, sério e sem sofisma. Se os partidos não aprenderem e se puserem a festejar, muito contentes com os resultados, então o futuro poderá vir a ser uma surpresa. Uma surpresa de efeitos perigosos.
Porque hoje é o dia mundial da música, e porque a flauta talvez tenha sido o primeiro instrumento musical a tocar uma melodia, deixo-vos com este concerto para flauta de Carl Philipp Emanuel Bach, tocado por um excelente flautista que já foi professor nas Caldas da Rainha, António Carrilho, num concerto gravado numa catedral da Noruega.
 



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

VAMOS A VOTOS

 

Eu gosto é das autárquicas. O poder local é o que melhor define este país desde a idade média. É o seu sustentáculo e o principal obstáculo à regionalização que nos querem impingir como modernice vinda de fora. A minha simpatia estende-se a todos os que dão o seu tempo e talento, disponibilizando-se a lutarem pela sua terra. Eu, que só à custa dum buldózer consigo sair da frente do computador e de dentro das pantufas, tenho esses homens e mulheres na maior das considerações. Se mandasse, ninguém entraria em São Bento sem fazer tirocínio no poder local, e digo isto sem a mínima ponta de ironia. É por causa do grande carinho que tenho pelos autarcas que aqui venho, em jeito de brincadeira, apelar à ida às urnas, e dispus-me a estudar com atenção o que me propõem os partidos para que no domingo o meu voto seja feito em consciência.

Deitou-me o PSD na caixa do correio uma mão cheia de propostas muito bem elaboradas e elencadas, de tal forma que sendo o candidato o actual presidente da junta, pus-me a imaginar quem teria sido o príncipe encantado que o acordou da letargia comatosa em que ele e a freguesia têm passado o último mandato. A Maria diz-me que estou a ser injusto. Que me lembre do sanitário para os cães ali colocado junto ao pinhal. É certo que sanitários para cães junto a um pinhal são uma redundância mas não é caso para ser ingrato.

O PS então é fantástico. Tão fantástico que se propõe resolver os problemas do meu bairro que eu nem sabia existirem: parece que há falta de um sumidouro ou sargeta. Pensei logo em oferecer-lhes a carteira: aquilo é um sumidouro que só visto.

A CDU, ou o PCP, apresenta um senhor simpático na foto da campanha, assim tipo avô cantigas, que pelos vistos concorre à Câmara, à Freguesia e à Assembleia. Assim se vê a força da CDU!

O Bloco de Esquerda diz que é preciso criatividade. A deles ficou-se pela foto de dois moços que facilmente se confunde com o cartaz publicitário de um filme do faroeste. Como estamos numa de propostas fracturantes, resta-me concluir que mesmo assim não têm cara de príncipes capazes de desencantar a freguesia.

Falta-me o CDS. Pergunto à Maria mas ela diz-me que o caixa do supermercado lhe afiançou que cá na freguesia não há disso, mas que arranja Independentes, se a gente quiser… Assim, como quem impinge um produto de marca branca!

Agora só me resta subir à mesa de voto: é que apesar de haver na freguesia um pavilhão público, com estacionamento à farta, insistem em colocar a assembleia de voto numa escola, sem lugar próximo para estacionar e onde pelo menos 4 secções de voto só têm acesso por escada, violando a lei da acessibilidade.

Difícil será convencer a Maria a ir votar. Anda excitadíssima a consultar um catálogo de moda brasileiro. É que esta casinha, que comprámos no tempo das vacas gordas, fica numa freguesia interior e agora, com a reforma autárquica, vai passar a ter vista para o mar. Por causa disso, meteu-se-lhe na cabeça comprar um daqueles bikinis que a única coisa que ocultam é a vergonha. Já lhe disse para ter juízo, que a crise não justifica tanto corte assim, e o plano director obriga a uma percentagem de área coberta.

Pronto, votem bem e com esperança no futuro!



sábado, 21 de setembro de 2013

ESTRELAS NO MONTEJUNTO

A sul de Capricórnio ouvi, em 1972, Alícia de Larrocha, então considerada a melhor pianista espanhola da história. Depois disso ouvi muitos outros como Tânia Achot no Mondego, Nela Maíssa e Nelson Freire, o famoso pianista brasileiro tão apreciado por Olga de Cadaval, no sopé da serra de Sintra, António Rosado na velha aldeia de Cóz…, todos sacudindo o pó das grandes salas de concerto de Londres, Paris ou Nova Iorque, para respirarem o ar das nossas serras e descansarem nas margens dos nossos rios. Badura Skoda, um intérprete austríaco que tocou com o lendário Furtwangler e com Karajan, e que gosta de visitar Óbidos para ensinar, ouvi-o tocar os estudos opus 25 de Chopin, ali, junto à lagoa, protegido pelas muralhas medievais. Ontem tornei a ouvir os mesmos estudos, desta vez interpretados não por um pianista consagrado como Larrocha ou Skoda, mas por um jovem de 23 anos que subiu da República Checa ao Montejunto para nos mostrar o seu enorme talento aliado a uma técnica rigorosa e perfeita. Irrepreensível.
Em ambiente familiar, num grupo de amigos que acreditam que o mundo pode ser transformado e que se juntaram para apoiar o esforço do Paraíso das Crianças, uma IPSS no Peral, ouvimos o Karel Vrtiska que outro grupo de amigos trouxe até ao Montejunto. Uma juventude que se movimenta pela Europa e que faz dela a sua casa, criando os laços de uma rede baseada na amizade, nos afectos e na cultura, ajudando a construir a nação europeia. É que sem os afectos e sem a cultura não será possível.
Não foi um artista consagrado que ouvimos em Pragança, mas uma estrela que desponta. Afinal não há melhor local para ver o nascimento das estrelas do que a serra do Montejunto.
Iremos concerteza tornar a ouvir o Karel quando ele voltar das salas de Viena, Londres, Tóquio… Virá visitar-nos para tornar a encantar com o seu virtuosismo então temperado com a maturidade que a vida lhe há-de proporcionar.
Entretanto, e para quem não pôde estar em Pragança, aconselho um salto a Praga em Novembro para, no Rudolfino, a melhor sala de concertos de Praga e sede da orquestra filarmónica Checa, ouvirem o Karel tocar.
 


terça-feira, 17 de setembro de 2013

CRISTIANO RONALDO, O PADRÃO OURO DA NOSSA MISÉRIA

A nossa imprensa desportiva, levada pelo entusiasmo, comparou recentemente Cristiano Ronaldo a Eusébio. A Pantera negra não gostou da graça e protestou com veemência. Até porque ele, Eusébio, nunca jogou contra o Liechtenstein nem contra o Azerbaijão.
Vai daí, um entusiasmado português e benfiquista, desconhecido dos seus concidadãos mas embaixador da Europa nos EUA, resolveu fazer prova de vida e comparou o actual presidente da comissão europeia, Durão Barroso, ao craque do Real Madrid: Durão é o nosso Ronaldo da política Internacional, diz João Vale de Almeida.
Não faço ideia se Barroso ou o ilustre embaixador já visitaram o Azerbaijão, e desconheço a opinião dos Gregos e Cipriotas que habitam as terras onde pela segunda vez a Europa foi violentada por um Zeus com cornos, mas aguardamos ansiosos, eu e a nação, a reacção de Cristiano Ronaldo.
Tem o Sr. Embaixador sorte em serem os madeirenses gente bem comportada. Fosse comigo, que sou da terra do Eusébio e vivo nas Caldas, imitava o gesto do líder do SPD alemão na capa da última edição do "Suddeutsche Zeitung" e dizia-lhes: Ide comparar o Barroso ao .…………!


terça-feira, 10 de setembro de 2013

O TAMANHO DOS TESTÍCULOS

 
 
Lê-se na edição online da TVI 24 que um estudo de uma universidade americana sugere (é todo um tratado um estudo sugerir em vez de concluir), que os homens com testículos menores são mais aptos para mudar fraldas.

Sempre é um avanço civilizacional. No tempo dos meus avós dizia-se que não ter testículos nenhuns era condição necessária à tarefa.

Na mesma edição afirma-se que Letícia, seguindo o exemplo do seu sogro, o rei, mandou calar alguém. Nada nos dizem, no entanto, sobre o tamanho dos testículos da princesa.

Entretanto Putin, no conflito com a Síria, ensina Obama como se tornar num líder mundial. Será que isso nos diz alguma coisa sobre a aptidão de Obama para mudar fraldas? Nem o jornal nem a universidade americana sugerem o que quer que seja.



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

SINDROME DE UNAMUNO

“Apresento-me perante vossa majestade porque me concedeu a honra da cruz de Afonso XII que tanto mereci.” “É estranho,” replicou o rei, “todos os outros que a receberam me asseguraram que a não mereciam.” Unamuno respondeu prontamente: “E tinham razão!”
Era assim Miguel de Unamuno. Republicano, depressa se desiludiu com o regime que depôs a monarquia por pensar que aquele destruía a Espanha que tanto amava. Basco de origem, tinha orgulho em pertencer à Espanha de Cervantes. Vê-se assim forçado a aclamar o líder dos rebeldes, o general Franco, achando nele o salvador que a Espanha precisava. Foi breve o encantamento. Na sua amada universidade de Salamanca, perante o governador civil, o bispo de Salamanca e a mulher de Franco, sentindo que ficar calado era o mesmo que mentir, discursou violenta e bravamente contra o brado fascista de “viva la muerte” do general Millán Astray. Perdeu o cargo e morreu um par de meses depois.
A isto chamo a síndrome de Unamuno: de que lado ficar quando ambos os lados não prestam?
Foi ao ler o discurso de Unamuno num dos blogues da minha preferência, que me lembrei que neste meu blogue, há mais de um ano, em Julho de 2012, no rescaldo das Olimpíadas de Londres, falei do assalto a Allepo na Síria. Agora que Obama, prémio Nobel da paz, faz soar os tambores da guerra, qual deve ser a nossa atitude? Entre um regime assassino e assassinos rebeldes, de que lado ficar? É que os “vivas à morte” ouvem-se de todos os lados!
 
O discurso de Unamuno:


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

HAIKAI (3)

 

 
 
                                    Rocha escarpada:
                                    Em uma mão o cinzel,
                                    Noutra a espada.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

NA MORTE DE ANTÓNIO BORGES

A morte de António Borges revelou o que de pior há na sociedade portuguesa: a pulhice.
A pulhice dos que dizem horrores do homem e a pulhice dos que lhe descobrem virtudes de fazer os santos pecar de inveja. A ninguém vi discutir as suas ideias.
Desde monstro merecedor das piores torturas a santo predestinado que escapou milagrosamente a um acidente de avião (juro que é verdade), de tudo se escreveu.
Confesso que a figura não me era simpática, talvez por defeito meu, pois nunca li nem conheci nada de substantivo que pudesse fundamentar a antipatia. Mas do pouco que lhe ouvi, nada passou além do que vulgarmente se atribui ao senso comum, o que para afirmar o mérito de economista capaz de se guindar ao nobel, convenhamos que é pouco. Da hagiografia do senhor nada posso dizer e desconheço até se era cristão ou mesmo crente. No entanto penso que o que defendia, quanto à distribuição da riqueza, era tudo menos uma ideia cristã.
Se era sábio, desconheço, mas sei que lhe faltava a educação necessária para saber que quem sofre de fastio por excesso, não recomenda dietas aos outros.
Quando andou pelas bocas do mundo estava já doente e sabia-o. Calou-se para evitar simpatias expondo-se assim voluntariamente às críticas desapiedadas. Desse gesto e do seu sofrimento lembrar-se-á certamente o Juiz Supremo.
Que descanse em paz.