terça-feira, 30 de dezembro de 2014

JANUS, o deus das duas caras

 
Sempre me intrigou que o ano começasse no primeiro de Janeiro, um dia sem qualquer significado astronómico que justificasse a coroação como o primeiro de um ciclo. Poupando esforços ao leitor deitei mãos ao estudo para meu próprio esclarecimento e do caro leitor, que a época é de partilha.
O calendário que seguimos e que foi, por assim dizer, imposto ao resto do mundo, é o calendário gregoriano que por sua vez se limitou a copiar o calendário romano com pequenas alterações e iniciando-se com o nascimento de Jesus. O calendário romano começou por ser lunar e por isso pouco certo, que isto de andar na lua tem as suas desvantagens. Mais tarde o rei romano Numa Pompílio, tentando acertar com a coisa, introduziu o mês de Janeiro que calhava, mais ou menos, onde calha actualmente.
É Janeiro o mês do deus Janus, o que tem duas faces: uma olhando o futuro, outra olhando o passado, que o presente é uma abstracção. É também o deus dos portões e por isso das saídas e das entradas. O símbolo ideal para terminar um ano e iniciar um novo. Janeiro seria então o mês inicial. Mas como isto de luas nunca anda muito certo e sendo o primeiro dia do ano demasiado importante para ficar ao deus dará, Júlio César, conhecido pelo gosto por mulatas egípcias e por isso danado para a brincadeira, decidiu e decretou que o primeiro dia do ano e do mês de Janus se iniciasse na primeira lua Nova após o solstício de inverno, coisa que naquele ano aconteceu, vá-se lá saber porquê, oito dias depois. O Sol macho dava assim a ordem mas só quando a fêmea Lua aparecesse é que podiam começar as festividades, porque festa sem mulher pode ser muito moderno mas torna-se monótono.
Está agora o meu caro leitor a fazer contas de cabeça e a verificar que a coisa não dá certo e tem razão: é que de 21 de dezembro a 1 de janeiro oito dias não são contados. Qualquer homem que tenha esperado por mulher para uma festa sabe o quão incerto é o tempo que terá a espera. O mesmo acontece com a Lua. Se demorou oito dias para Júlio César não significa que mantivesse essa constância, pelo que esperar pela Lua Nova revelou-se um transtorno. Nenhum sindicato conseguia marcar as greves dos transportes a tempo do réveillon e o champagne acabava por aquecer. Alguém previdente resolveu então fixar um tempo razoável para a cura da ressaca das festas do solstício e evitar o congestionamento das marcações no cabeleireiro: onze dias fixos se contariam desde o solstício que alguma Lua apareceria nesse ínterim, rezando para que não fosse a da fase do quarto minguante que é sempre de evitar, e não se falou mais nisso. Nós, que às festas do solstício chamamos agora de Natal, agradecemos, pois o corpo não aguenta tanto excesso seguido sem intervalo adequado.
Como curiosidade saiba o leitor que a primeira Lua Nova após o solstício de Inverno de 2013 aconteceu precisamente a 1 de janeiro de 2014 iniciando-se assim o ano conforme a vontade de César. Já a primeira Lua Nova após o solstício de Inverno de 2014 deu-se exactamente um dia depois, a 22, pelo que o começo do ano de 2015 será em quarto crescente a caminho da Lua cheia o que só pode trazer bons presságios.
Um bom ano para todos e tenham cuidado com os excessos que a austeridade ainda não acabou.



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O PRESÉPIO


        Quando no século XI os turcos seljúcidas atacaram o que restava do velho império romano ameaçando Constantinopla, os estados europeus ameaçados a leste e a oeste, deram início ao movimento das Cruzadas para libertar a Terra Santa e pô-la de novo sob domínio cristão. Durou séculos esse movimento e no final perderam os cristãos.

Neste ambiente de cruzadas para libertar a terra Santa aparece aquele de quem Dante disse ser uma luz que brilhou no mundo: Francisco de Assis, menino rico e revolucionário que depressa percebeu que a revolução só é possível se for feita dentro de cada um de nós. Recusou a riqueza que possuía e, durante a 5ª cruzada, partiu para o Egipto para pregar aos cruzados o fim das guerras. Não lhe deram ouvidos e resolveu passar para o lado dos muçulmanos onde encantou, com o seu verbo e atitude, o sultão do Egipto.

Combate a guerra, bradava ele. Os amigos diziam-lhe que a guerra era necessária para libertar os locais onde Jesus nascera. Francisco, que há muito sabia que em vez de actuarmos em nome de Jesus devemos fazer como Jesus, e contrariando a ideia de libertar pela guerra o lugar onde o menino nasceu, foi para a floresta de Greccio, na Itália, e ali construiu o primeiro presépio em barro, para ensinar aos simples e aos pobres que o local onde Jesus quer nascer é dentro dos nossos corações, pelo que não importa de que lado está Belém.

A árvore de Natal simboliza a esperança no renascimento da primavera, mas o presépio simboliza a esperança de ver o menino Jesus nascer no coração dos homens, numa primavera luminosa.

Um bom Natal!



sábado, 20 de dezembro de 2014

CUBA LIBRE


       Ao contrário do que certa esquerda moderna apregoa, nomeadamente as novas correntes que grassam por Espanha, não existe um “leninismo amável”. Direi mesmo que juntar Lenine e amável numa frase é um oximoro, uma contradição dos termos. Não há, nunca houve, e não pode haver um leninismo amável, no entanto temos tendência a pensar o regime cubano como amável, esquecendo a prisão e a tortura. Julgo que tal facto se deve à empatia fácil que temos com as suas gentes e à forma alegre e divertida com que enfrentam e enfrentaram uma ditadura feroz e sanguinária, que lançou não só opositores na prisão como quis reeducar quem não se regia pelas regras do novo regime, como a prisão de homossexuais, para falar de temas tão caros a uma certa esquerda desmemoriada.
A onda de entusiasmo que varreu as ruas de Cuba face aos esforços de aproximação aos Estados Unidos significa somente que os cubanos sabem que a ditadura tem os dias contados e que cairá de forma pacífica se todos souberem estar à altura das circunstâncias, coisa que os republicanos americanos teimam em não estarem, preocupados com a falta de democracia cubana (a direita é tão desmemoriada quanto a esquerda), enquanto se esquecem que as ditaduras a que estão aliados não cairão tão fácil e tão depressa como cairá a cubana com quem não se querem aliar.
É velho cliché dizer que Cuba e os EUA estão condenados a darem-se bem, mas não deixa de ser uma verdade indesmentível. Foi a intransigência dos EUA quem pôs Cuba no colo do bloco soviético. É hora de assumirem as suas responsabilidades de potência dominante daquela zona do globo e darem a mão a um país que só procurava recuperar a dignidade naquele réveillon de 1959.
 


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

BOLOS E TOLOS


Os bolos são como as pessoas: há-os belos por fora mas sensaborões por dentro, os que ficam assim com ar de quem recebeu uma carta do director das finanças mas que os pasteleiros exibem com vaidade dando-lhe o nome de “escangalhado” porque apesar das aparências são deliciosos. Depois há os de chocolate, de nozes, de maçã, de ananás, de chiffon, de mármore (salvo seja). Há-os recheados, ensopados e os cobertos de açúcar, de maçapão, de doce de ovos… e ainda há o “pão-de-ló”, que se for húmido come-se que é um regalo mas se for seco embucha. Uma coisa têm, no entanto, em comum: dão-se mal com o salgado!
Não fique o leitor embuchado e se tiver uma ou mesmo duas irmãs que passem as noites a cozinhar bolos, não faça como o outro e defenda-as, porque os bolos, ao contrário dos bancos, mesmo falidos servem para um tiramisu disfarçado ou um pavê requintado.

Na foto:
as irmãs dos banqueiros, toda a noite fazendo bolos!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

AS CARTAS, O VERMELHO E OS FERIADOS

 
 

Quando intitulei este meu blog de: Cartas das Caldas, estava longe de imaginar que o estilo epistolar iria renascer nas planuras do Alentejo.

Se as cartas de Valmont e madame Merteuil nos remetem para a intriga, já as do marquês de Sade, da marquesa de Alorna e do conde de Assumar nos lembram as agruras do cárcere, como as do preso mais famoso de Portugal (que ninguém se tenha lembrado de promover estudos sobre a apetência dos políticos da república para copiarem os tiques aristocráticos é coisa que me espanta). Não sabemos com que cor escrevia a freirinha Mariana Alcoforado desde a prisão de um convento, não de Évora, mas de Beja, mas tendo em conta o estado do seu amoroso coração, bem podia ter sido o vermelho. Não será, portanto, por a tinta ser vermelha que a coisa se torne mais inédita ou popular. Convém lembrar que o conde de Assumar escrevia a vermelho, porque só lhe restava o próprio sangue como tinta, ao passo que Jack, o estripador e o serial killer polaco Staniak gostavam de assinalar com aquela cor a própria psicopatia. Entre tiques aristocráticos e psicopatias vai um salto e reparo agora que esta história das cartas me foi desviando dos feriados que queria assinalar.

Cartão vermelho é o que este governo leva com a história dos feriados, confundindo produtividade com horas de trabalho, talvez levado pelo facto de que facilmente se esmaga a formiga trabalhadora enquanto que à cigarra cantadeira dificilmente alguém a apanha. Andou bem a Igreja católica quando, encostada à parede como em Savona, salvou o 8 de Dezembro em detrimento do 1º de Novembro (a Igreja tem a sabedoria milenar e ser Napoleão não é para quem quer, mas para quem pode). Os mortos não deixarão de ser lembrados e a festa da nossa mãe, padroeira, e rainha na sequência daquele 1º de Dezembro também ele roubado, é demasiada importante para ser descurada, não fosse ter ela sido antecedida pelas famosas deusas lunares pagãs da Lusitânia (a Lua lá está, e a serpente…). Povo sem os seus totems é amálgama de gente sem identidade, pelo que é caso para dizer: ide brincar com o xxxxxxo do vosso pai, que os feriados são importantes demais para chocarrices de gente sonsa.

Toda a minha vida estive ligado, de certa forma, a Nossa Senhora da Conceição, ilustre madrinha de baptismo de meu pai. Desde o baptismo feito na mesma igreja onde meus pais se casaram e que lhe está consagrada até à terra onde actualmente trabalho, e que tem aquela representação da Virgem como orago. Caldas da Rainha, onde vivo, tem a Senhora do Pópulo como orago mas a sua matriz, onde baptizei a minha filha, está consagrada a Nossa Senhora da Conceição. Eu e a minha mulher começámos a namorar pela festa da Imaculada Conceição e o nosso primeiro filho foi baptizado na igreja de Nossa Senhora de Lourdes, cuja aparição se identificou a Bernadette como sendo a Imaculada Conceição. Coincidência ou não, sinto-o como privilégio.

Nos dias de chuva, eu e a minha irmã mais velha, junto à janela onde se pendurava o ramo bento para livramento de trovoadas, rezávamos, não a santa Bárbara mas à Senhora da Conceição para que fizesse sol, chuva não.
 
Nossa Senhora da Conceição
faça sol e chuva não.
Está a chover, está a pingar
e a raposa no quintal
a apanhar laranjinhas,
para o dia de Natal!
 

… é tempo de ir ao musgo para o presépio!


sábado, 29 de novembro de 2014

NÃO SÃO TODOS IGUAIS

 

Custa-me ver o paladino da democracia e da ética republicana clamar, numa postura ofensivamente aristocrática, mais preocupada com o “processo” do que com os indícios, as detenções que afectam amigos e correligionários, gritando sempre alto e em bom som que todo o povo pensa como ele, como se a brisa suave que corre pelo Campo Grande igualasse os ventos frios do Marão. Como se o majestático epíteto do absolutismo fosse agora: Le Peuple c’est moi.

A ética desta república esqueceu-se de que à mulher de César não basta ser honesta mas que é preciso parecer, e quando um político não parece honesto, embora o seja, é porque a sua conduta fere de algum modo a tão apregoada ética republicana. Os que rasgam as vestes por causa das humilhações públicas dos seus correligionários deveriam tê-las rasgado quando a parecença de honestidade deles era posta em causa, tornando-se, isso sim, uma humilhação para todos. As instituições democráticas beneficiariam.

Num tempo em que o Povo desacredita das instituições democráticas por causa dos maus políticos, é necessário lembrar, não os que enchem a boca com a ética republicana, mas os que a aplicaram todos os dias da sua vida. E Portugal e a democracia conheceram, felizmente, dois desses políticos: Maria de Lurdes Pintassilgo e Ramalho Eanes.

Lurdes Pintassilgo e Eanes fazem parte do grupo de políticos a que pertencia Thomas Moore: os que vivem de acordo com as convicções que pregam, procurando sempre o bem da comunidade e não as benesses dos cargos que ocupam, vivendo no silêncio do dever cumprido. Além deste grupo de políticos, que desejaríamos fosse o único, existem outros dois: os que trabalham de igual modo para o bem da comunidade mas que se aproveitam de todas as benesses que consigam obter com o cargo, e um terceiro grupo, o daqueles que só se aproveitam e não cuidam do bem comum. Os destes grupos falam sempre de altos púlpitos enchendo o vazio com as suas orações à ética republicana. Por isso têm razão os que dizem não serem os políticos todos iguais. Resta saber com quem se desiguala quem o diz.

Assim como não basta apregoar a ética republicana também não basta falar na desigualdade dos políticos se não parecerem diferentes.

 
Ninguém é mau, e quanto mal foi feito.
Vitor Hugo


sábado, 22 de novembro de 2014

VERGONHA

 
Sinto-me envergonhado! A detenção de um ex-primeiro ministro do meu país e um antigo aluno da minha escola de Coimbra deixa-me envergonhado.
Não me faltavam temas para plasmar nestas minhas presuntivas crónicas: a morte de Cayetana, a estupidez dos políticos que não conhecem o tempo e o modo para as decisões que tomam, a birra infantil de um deputado guindado a presidente de uma comissão, a excelente requalificação ribeirinha de Lisboa por onde ontem me passeei… não me faltavam os temas até que a noite me trouxe esta vergonha. Ver um ex-primeiro ministro ser detido.
Se troquei com Sócrates três palavras já foi muito. Lembro de me ter pedido qualquer coisa sobre um trabalho quando frequentávamos a mesma turma em Coimbra. Sócrates voava sempre por cima das nossas conversas e interesses de adolescentes serôdios, mas é sempre uma vergonha ver um ministro, e antigo aluno da nossa turma, ser detido.
Mas para quem se sente empolgado com a notícia sempre lembro que o poder corrompe mais que o jogo ou que as mulheres (já li em qualquer lado). Se um deputado usa o seu estatuto para abrir portas, imaginem o portão que consegue abrir sendo primeiro-ministro! Qui potest capere, capiat…



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A LEGIONELLA E OS COMETAS

 

Há alturas em Portugal que os políticos, como aves necrófilas, aproveitam a morte e a desgraça dos outros para alimentarem querelas estéreis. O ministro da saúde, que juntamente com os responsáveis políticos e técnicos da área demonstrou um grande sentido de responsabilidade e eficiência durante o surto da doença do legionário que afectou a zona de Vila Franca de Xira, resolveu manchar o bom trabalho fazendo o que me pareceu, nada mais nada menos, uma chantagem sobre os enfermeiros, apelando ao fim da greve por causa da desgraça provocada pela legionella: ou aceitavam o seu repto ou tinham a população contra eles, ficando ele, o ministro, bem colocado na fotografia. Como se as greves dos enfermeiros alguma vez tivessem posto em risco os cuidados de saúde necessários no internamento e na urgência dos hospitais. Como se as más políticas no sector da saúde não fossem muito mais graves para a saúde de todos nós do que as greves de um sector tão maltratado. Por sua vez, os políticos da oposição afiaram o dente para se atirarem ao governo culpando-o das mortes e do surto, provocados, no seu entender, pelas alterações legislativas que eles, distraídos com discussões sobre bustos de presidentes ou sobre se os rapazes devem ou não continuar a fazer xixi de pé, se esqueceram de criticar na altura e momento dessa alteração. Os que morreram e os que adoeceram não mereciam tal espectáculo.

Passou despercebida, e compreende-se, a descida de uma sonda europeia sobre a superfície de um cometa. Muitos acharão o dispêndio de dinheiro destes programas uma futilidade. Se pensarmos que os cometas poderão ter sido o veículo que trouxe à Terra os ingredientes químicos necessários à vida, percebemos que o seu estudo poderá ser de superior importância na compreensão do processo da vida, do qual aquela bactéria conhecida por legionella faz parte. A eficiência demonstrada pelos nossos técnicos no estudo e resolução do surto de Vila Franca de Xira e o sucesso daquela viagem ao cometa demonstram bem a importância primordial que devemos dar à educação e à investigação. Talvez fosse bom que o ministro da Saúde lembrasse isso ao seu colega da Educação em vez de arengar contra os enfermeiros. Talvez fosse bom pensar que a sangria da nossa inteligência em direcção ao estrangeiro é muito mais perigosa que uma greve.

E a semana trágica continuou, como se os antigos tivessem razão que os cometas só trazem desgraças. Morreu um Poeta e um Nobre: Manoel de Barros e Fernando de Mascarenhas. Um brasileiro a quem a língua portuguesa deve e um português que nascendo aristocrata se revestiu de nobreza com o exemplo da sua vida, demonstrando que a ética não é monárquica nem republicana. Ficámos todos mais pobres.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
           
Manoel de Barros
1916-2014



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

TIMOR - da incompetência e da cortesia

 

O advogado Morais Sarmento disse na televisão que devíamos ser prudentes e não fazer juízos precipitados sobre os motivos de uma certa expulsão de certos magistrados a quem apelidaram de incompetentes: Imaginem o que seria virem para cá juízes estrangeiros dizerem que nós não prestamos! – foi mais ou menos assim que rematou o ex-ministro. Esqueceu-se de dizer que quem convida juízes estrangeiros para exercerem tarefas na sua terra deve esperar deles justiça e não cortesia, que para isso servem os embaixadores. Acresce lembrar que a justiça ou é imparcial ou não é justiça.

Quanto à incompetência é evidente que a mesma é suficientemente democrática para se distribuir equitativamente pelos vários povos e cargos. Do Minho a Timor, como se dizia no meu tempo de escola. Há incompetências originárias e incompetências adquiridas e umas são boas e outras más. Por exemplo: Em democracia, um parlamento é, de origem, incompetente para decidir se os juízes o são ou não. E isso é bom porque obriga à separação de poderes! Mas quando um parlamento aprova a atribuição de carros de luxo a todos os deputados, (num país onde a maioria das estradas estão em muito mau estado), e aprova um regulamento em que expressamente recomenda aos deputados que devem cumprir o código da estrada e conduzir devidamente encartados, adquire uma incompetência escandalosa pondo a nu a incompetência dos deputados que necessitam de um regulamento para saberem que estão obrigados ao cumprimento das Leis. E isso é muito mau!
No que se refere à cortesia, resta lembrar que um país que não se pôs ao lado dos poderosos que não admitiam o nascimento de outro país pequenino e frágil e que, à falta de melhores meios para defender aquele nascimento, colocou um antigo presidente da república numa pequena embarcação para fazer frente à armada de um desses países poderosos, merece, pelo menos, não ser insultado pela atrapalhação do primeiro ministro do país que nasceu apesar de tudo.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM A ISTAMBUL

 

A paragem do metro de superfície de Çemberlitas encosta-se à grandiosa coluna de Constantino sem pedir licença. O símbolo da nova Roma do Oriente merecia melhor sorte.

Aquela bela e magnífica coluna construída em 330 DC foi durante mil e cem anos o símbolo da capital do legado romano que em 1453 se transformaria na capital do império Otomano. Quando em 1923 o fundador da República Turca a destronaria a favor de Ankara, Constantinopla, então Istambul, perdia o estatuto de capital. Tinha aquela coluna cerca de mil e seiscentos anos. Uma capital com esta história ininterrupta de poder e glória merecia morrer de outra forma: arrasada por um ataque de hordas sanguinárias vindas do interior da Ásia ou de Marte, ou por qualquer cataclismo natural suficientemente grandioso, mas nunca por decreto administrativo. Ataturk, para salvar a Turquia, abriu uma ferida no coração de Istambul difícil de sarar e de compreender. Os milhares de turistas e cidadãos que diariamente descem naquela paragem correm em direcção aos banhos mesmo ao lado, aos kebabes que a rodeiam, à mesquita quase em frente ou à movimentada feira que inunda as ruas em direcção ao Grande Bazaar. Quem ali chega de carro procura um espaço disponível no caótico parque de estacionamento junto à sua praça. Além das pombas mais ninguém olha para o alto da velha coluna com dezassete séculos e que um dia ostentou a estátua do deus Sol Invicto na representação do imperador. A coluna que resistiu a temporais que destruíram a estátua, ao violento incêndio que a enegreceu e ao roubo dos cruzados que num excesso de hooliganismo acharam mais fácil pilhar a cidade irmã que dar batalha ao inimigo, é capaz de não resistir à indiferença dos cidadãos de Istambul e dos turistas entontecidos pela azáfama comercial no que foi o coração da cidade.

Se a Coluna de Constantino foi o coração de Bizâncio, Santa Sofia foi a alma. Uma e outra perderam a sua função mas Santa Sofia mostra ao mundo, entre as feridas abertas, o espanto dos seus mosaicos que o azul da mesquita irmã não consegue ofuscar. O coração e alma de Istambul estão hoje no Corno de Ouro e no Bósforo. É assim Istambul. Uma cidade viva que recusa o estatuto de museu, que não é velha nem nova e onde no meio de bairros pobres e decrépitos se podem encontrar velhas igrejas convertidas em mesquitas, Pamakaristos e São Salvador em Chora, ostentando magníficos exemplares dos mosaicos bizantinos que escaparam ao fervor religioso e à fúria rapace de exploradores que fizeram a glória dos louvres espalhados pela Europa. Os mosaicos têm um brilho ali, no meio dos prédios arruinados e de miúdos que brincam na rua, que nunca teriam nas paredes de um museu.

Istambul, que outrora foi mais cosmopolita do que hoje é, como refere Orhan Pamuk citando Théophile Gautier, onde entre tantas línguas que os seus habitantes falavam se incluía o ladino que os judeus ibéricos para ali levaram, necessita de uma representação simbólica que lhe foi roubada ou que perdeu. Já não é possível aos turistas basbaques olharem nos olhos[i] o sultão que todas as sextas-feiras se dirigia à mesquita como crente devoto, ou suspirar em volta dos muros do harém (edifício opressivo que apesar da beleza deixa uma marca desagradável no espírito de quem o visita), imaginando frivolidades sobre as mulheres que o habitavam. Essa falta transforma Istambul numa simples feira, rica e bela. Apesar do património riquíssimo, falta-lhe a fruição do gosto cultural e artístico de Berlim ou Paris, ou a sofisticação moderna e simbólica do poder económico e da cultura pop de Londres. Roma, destronada por Constantino, mantém contudo um símbolo que Istambul perdeu. Esvaziada do seu antigo poder resta-lhe como símbolo aquele corredor de águas profundas e escuras que liga o centro da Europa ao Mediterrâneo e que enriquece a cidade.

Uma visita de seis dias é insuficiente para “pintar” retratos à moda dos escritores e jornalistas que visitaram a cidade no período romântico mesmo que o seu engenho e arte me acompanhassem, mas não posso deixar de falar da vida simples, pacata, de aldeia, dos bairros arruinados de Fener e Balat, das velhas casas de madeira, da vista que se descobre, entre prédios de uma rua estreita e íngreme, sobre o Corno de Ouro e do bairro de Pêra no outro lado e da calma melancólica dos seus cemitérios onde os gatos se fazem estátuas vivas imitando os anjinhos de pedra que se vêm nos nossos. Istambul é tão antiga que já ninguém lhe pergunta a idade e por isso se permite tomar chá encostada às pedras do velho aqueduto romano, à sombra dos seus arcos, como se de um vulgar muro de quinta se tratasse. Só aqui se permitiria que o túmulo do conquistador, um homem sábio e grande que virou do avesso a história do mundo e granjeou o respeito e o temor da Europa e cujo feito é usado como sinal do fim da Idade Média, se situe num belo mas singelo mausoléu de jardim à porta do cemitério da mesquita de Fatih, por onde os distraídos passam sem se aperceberem da importância do local.

Poucos em Paris saberão quem foi Haussmann e Manuel da Maia é um completo desconhecido dos portugueses, mas em Istambul o apressado homem de negócios que desce em direcção a Eminonu não deixa de dispor de um pouco do seu tempo para rezar no passeio da rua, chegado à grade do cemitério onde se encosta o túmulo simples e despretensioso de Mimar Siman, o arquitecto da grandiosa mesquita de Solimão e do hammam de Çemberlitas frente à coluna de Constantino. Foi a mais comovente representação de cidade que já vi!

Gostaria de descrever a beleza dos arcos, das portas, das cimalhas e dos capitéis que ornamentam as mesquitas grandiosas, falar da calma que se sente nos seus pátios e da vista dos seus jardins miradouros debruçados das colinas do distrito de Fatih. Da beleza das suas pedras que tem a mesma cor e textura das pedras ensaboadas dos hammams. Não saberia o que dizer da mesquita de Ortakoy, jóia barroca de cor rosa, e do sobressalto de a ver tão frágil à beirinha do Bósforo, um corredor de mar sem praias que a deixa à mercê da deriva de um qualquer cargueiro que perca o rumo do mar Negro em manhã de nevoeiro.

Falaria do encanto do grande bazaar com a sua profusão de jóias e tapetes, da gincana acrobática dos carregadores de bandejas de chá circulando por entre a multidão, e da explosão dos sentidos da vista e do olfacto provocado pelas bancas do bazaar das especiarias.

Recomendaria a paciência necessária à travessia dos túneis de Eminonu, fugindo dos vendedores de relógios, telemóveis, brinquedos, cuecas e peúgas para alcançar a ponte da Gálata cujos pescadores parecem alheados das histórias de sultões e concubinas que ali, à sua frente, no jardim que se vê ao fundo e acima, na ponta que marca o estuário onde pescam, um dia aconteceram.

Depois descreveria a Gálata e a Istiklal que começando no convento dos Mevlevis acaba de maneira espantosa, assombrosa e até assustadora na Praça Taksim, para citar Orhan Pamuk que acrescenta, citando por sua vez Nerval: Lojas brilhantes de comerciantes de moda, de joalheiros, de confeiteiros e boutiques de roupas finas, mansões inglesas e francesas, salas de leitura e cafés. E, acrescento eu, de gelados, bares e restaurantes, casas de câmbio, livrarias, lojas de perfumes e de instrumentos musicais, Kebabs, peixarias, cordões policiais, manifestações … gás pimenta!

Se fosse capaz descreveria os matizes das cores dos bosques das margens do Bósforo, das suas pequenas aldeias que mergulham nas águas escuras e que oferecem uma calma que contrasta com o bulício da grande metrópole que se vê em fundo e teria de afirmar que as vistas do Bósforo sobre a cidade mostram-nos uma silhueta teatral e o desenho das colinas faz-nos lembrar, inevitavelmente, Lisboa. E se a comparação com as restantes cidades que conheço me permitem dizer sem hesitação que Lisboa vence todas, aqui a mão hesitaria e tremeria com medo de transferir para a pantalha do computador a heresia antipatriótica de que Istambul é a mais bela!

E num remate poético teria de afirmar que a cerimónia do Sema e as danças dos dervixes no convento dos Mevlevis, património cultural imaterial da humanidade, preenchem o aparente vazio da representação simbólica da cidade: l’Amor que move il Sole e l’altre stelle[ii]. Que do meio da ponte da Gálata fica-nos na retina o Sol poente brincando às escondidas com os minaretes da mesquita de Solimão e que a beleza do timbre da voz do muezim da mesquita Mihrimah de Uskudar, na Ásia, nos tocou o espírito quando, no seu melodioso Adhan (ezan), chamava à oração do meio-dia: “Deus é grande… Não há outra divindade senão Deus”!



[i] O poeta francês Nerval jurava que o sultão o viu e que os seus olhares se cruzaram. In “Istambul, memórias de uma cidade” de Orhan Pamuk
[ii] Último verso da Divina Comédia de Dante: O amor que move o Sol e as estrelas.



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

DEUS E O SEXO

 

Sabendo nós onde costumam ir parar as boas intenções, não deixei de me preocupar com o testemunho de um grupo de casais jovens, intitulando-se casais católicos, em defesa do casamento como Sacramento. São intenções louváveis as que pretendem para si, não sou eu quem o contestará. Dizem que se devem entregar ao amor conjugal aceitando como dádiva de Deus toda e qualquer consequência (leia-se filhos) e, por isso, entendem que os filhos não podem ser planeados como quem planeia as férias ou a compra de uma casa. Sendo assim só os métodos “naturais” devem ser permitidos numa relação sacramental, como se acredita ser o casamento entre os católicos (os cristãos da Reforma só aceitam os instituídos por Cristo: o Baptismo e a Comunhão). Acrescentam os bondosos jovens casais que tudo isso não lhes saiu das lindas cabecinhas, porque singelas, mas aprenderam nos Evangelhos, no Novo Testamento e nas encíclicas papais.

Pensam assim que o sexo pode ser feito com prazer mas só quando serve um propósito que não esse prazer, assim como comer e beber só quando se tem fome e sede, como se o primeiro milagre de Jesus não tivesse sido a transformação da água em vinho, precisamente numa festa de casamento, para dar de beber a uma multidão de bêbados que se tivessem sede beberiam água!

Eu e a minha mulher, que somos católicos por convicção e casal porque assim o entendemos, planeámos os filhos não como quem planeia as férias ou a compra da casa. É que nessa altura só sabíamos como planear os filhos porque as férias e a compra de casa estavam fora do nosso alcance pelo que não serviu de termo de comparação, como parece ser o caso daqueles jovens felizes e bem-parecidos. Quererem os jovens e bondosos casais impedir que a Igreja se abra e deixe de considerar pecado a contracepção artificial parece-me daquelas boas intenções que enchem o Inferno de muita gente. Já agora acrescento que no meio de tanta entrega usar os métodos naturais cheira-me a grosseira batotice. Então o Senhor, na sua infinita misericórdia, desperta os instintos mais naturais do macho através das feromonas da sua fêmea em ovulação e vocês, macho e fêmea, recusam o chamamento da natureza que é o mesmo que dizer, Divino?! Parece-me mal! Não vale tirar trunfos da manga porque Deus tudo vê!
 
        Quanto aos Evangelhos e ao Novo Testamento, meus caros, convém reler a matéria. É que Cristo nada disse sobre o comportamento sexual de casados e não casados (uma chatice fazer sexo sem compêndio adequado) a não ser que evitassem babarem-se para cima da mulher do vizinho, numa clara referência à hipocrisia de quem se faz passar por santo. Falou do divórcio, bem sei, mas tornem a ler e a contextualizar e verão que o assunto tinha tudo a ver com a questão sócio económica da mulher abandonada e nada a ver com as questões do sexo ou indissociabilidade do casamento. Quanto ao São Paulo, apesar da sua profunda misoginia, lá foi dizendo que era melhor casar-se que abrasar-se e depois deu uns conselhos com o devido cuidado de referir que nada daquilo que dizia tinha sido o Senhor quem lhe sussurrara, mas que era ele, como homem, que achava por bem aconselhar. Se todos tivessem seguido os conselhos de Paulo já não haveria cristãos e muito menos católicos.

 Fazer interpretações daquilo que Cristo não disse ou que São Paulo disse com reservas parece-me o mesmo que inferir que Jesus e João tinham um caso porque este último deitava a cabeça sobre o peito de Jesus que lhe chamava: discípulo muito amado (Jo13,23-25), e lá se ia o casal macho e fêmea como vocês tão bem quiseram sublinhar na vossa amável tomada de posição.

 Jesus preocupava-se mais com os pecadores do que com os pecados, por isso, caros jovens casais, façam sexo com toda a entrega que entenderem por bem, mas não definam para os outros o que é pecado e anti sacramental que São Paulo a tanto não se atreveu.
 
Imagem existente no portal da Sé de Lamego roubada daqui:





sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O ÉBOLA É MAIS MORTÍFERO QUE A ESTUPIDEZ?


       Um dos legados que levámos aos povos americanos foi a varíola. Em menos de cem anos da descoberta da América já as suas populações morriam deste vírus desconhecido naquele continente mas conhecido em todo o resto do mundo. Estando a África há muito ligada à Europa e à Ásia através das rotas de caravanas e, mais tarde, pelo colonialismo, não deixa de ser estranho o aparecimento no século XX, em regiões remotas daquele continente, de novos vírus aparentemente transmitidos pelos animais selvagens como se estes fossem para a África o que Colombo foi para a América. Como se os morcegos tivessem chegado a África nos anos setenta do século passado. Coisa tão intrigante como o célebre grito do Tarzan!
          E enquanto o ébola se aventura fora da bacia do Congo fazendo soar as campainhas da milionária indústria farmacêutica (ao contrário dos países da África central, a Europa e a América ainda gastam dinheiro com a saúde), madame Obama, preocupada com a obesidade, dança com nabos. Já se sabia! Por cá, um juiz afirma que o sexo não tem qualquer importância após os cinquenta anos. Pena não haver sultões, senão o eminente juiz teria emprego garantido como guarda do serralho após a reforma, já que o Papa Francisco não aceita “meninos” do coro da capela sistina! João César das Neves, brilhante economista e professor catedrático da nossa praça, compara a sua mulher aos pulmões que os tem fracos e doentes e que, apesar disso, nunca deles se separaria. Não sabemos o que pensam os pulmões de César das Neves sobre uma eventual amputação do professor!
          Os Curdos, cujas mulheres não andam de cara tapada porque não têm vergonha dos maridos e não dançam com nabos, defendem com valentia e coragem a sua terra e os seus costumes. Todos assobiam para o ar. Porque lhes dá jeito que outros façam o trabalho? Por lhes faltar a franqueza de Churchill que não se importou nada em mandar gasear os curdos e ainda fez alarde disso?

Não sei o que me assusta mais, se um vírus mortífero se a estupidez de catedráticos e primeiras-damas, ou se a orquiectomia de magistrados e políticos!

sábado, 4 de outubro de 2014

SOMOS TRATADAS COMO PRINCESAS

Somos tratadas como princesas, diz uma jovem que largou o conforto do nosso estado social para se dedicar a uma causa que tem a morte como lema. Parece niilismo mas é muito mais uma reacção violenta ao niilismo em que o mundo ocidental vive mergulhado. Uma recusa ao “vale tudo” ocidental.
Não serei tonto para afirmar que o horror que varre o Médio Oriente é culpa do nosso niilismo. O que ali vemos é velho e antigo. Guerras de califados, com mais ou menos horrores, varreram toda a Idade Média. O que nos surpreende é ver mulheres recusarem a igualdade e a liberdade em troca do tratamento de princesas. É vermos jovens devotados a uma guerra injusta e cruel, onde parecem divertir-se matando inocentes e que jamais poderá denominar-se de Jihad. A esses jovens, educados no seio deste nosso niilismo, soar-lhes-ia estranha aquela oração de um cruzado perante a desgraça dos mouros de uma Lisboa conquistada: Cessem, Senhor, as intervenções da tua ira. Deixe de descarregar a tua mão! Basta Senhor!...Agora, se é possível, converta-se o luto deles em alegria…
A nossa reacção àquele horror vem de dentro das nossas crenças alicerçadas em séculos de tradição e depressa esquecemos que, não obstante essas crenças, vivemos na aceitação do niilismo vigente. E é por isso que aceitamos, sem pestanejar, o anúncio definitivo da morte da filosofia que Stephen Hawking bradou alto e em bom som. Quando o brilhante cientista determinou a morte de Deus, já anteriormente declarada por Nietzsche, aproveitou a deixa e afirmou que a Ciência em breve responderá a todas as perguntas, arrumando de vez para as estantes dos museus toda a especulação filosófica. Elevando assim a Ciência à condição de nova religião e a si próprio como o seu profeta, fica-se sem saber se estamos perante o derrube do Niilismo ou, pelo contrário, perante a sua consumação.
Escudado na força da ciência e da tecnologia, tão querida a Hawking, o presidente americano diz que não enviará tropas para o terreno (outros que arrumem a casa que desarrumaram). Perante essa vontade, ou falta dela, que os eleitores de Obama saibam que enquanto houver jovens que deixam o conforto e a segurança do nosso estado social para matarem e serem mortos, num absurdo e aparente niilismo em oposição ao ocidental, e eles só pretendam ir a jogo com o recurso à tecnologia, então chegam já derrotados! Eles e nós, os órfãos de Deus.
É que o Diabo, ao contrário de Deus que Hawking declarou morto, existe, está bem vivo e recomenda-se!

 Aos inocentes mártires, “In Paradiso” de Fauré



sábado, 27 de setembro de 2014

O SALÁRIO DOS PORTEIROS

 
            Ao contrário do que as vozes populistas e demagógicas gostam de apregoar, sempre disse que os deputados ganham pouco. O que não acho tolerável são as mordomias, as prebendas, os subsídios e todo o menú de alcavalas que suportamos para lhes arredondar o fraco salário.
            Os deputados deviam estar naquele lugar (o parlamento) sem auferir coisa nenhuma mantendo o exercício da sua actividade profissional, ou deviam ganhar o suficiente para não terem de andar a abrir portas para um pé-de-meia.
Ganhando um salário, a exclusividade devia ser a regra e o salário devia incluir o valor para a reintegração. Deputados representantes de algo que não sejam os cidadãos, ou mestres da arte de desenlaçar novelos é que não.
            Por isso repito que o salário dos deputados é pequeno, já o de porteiro!...



sábado, 20 de setembro de 2014

REFERENDOS, INDEPENDÊNCIAS, SECESSÕES E A ESTUPIDEZ

No rescaldo do concerto no museu Malhoa, protagonizado por um coro masculino de Inglaterra onde cantavam também dois escoceses que não se distinguiriam dos demais não fosse o saiote feito por um português aqui da zona Oeste, dei por mim a pensar naquela união que foi agora a referendo.
Tudo começou quando em 1603 o rei Escocês se tornou rei de Inglaterra. Em 1706 o parlamento escocês e o parlamento inglês decidiram de comum acordo, já que tinham as duas coroas na mesma cabeça, auto-extinguir-se e formar um único parlamento. Nascia o Reino Unido.
No final do século XX, quando o escocês Tony Blair era primeiro-ministro do Reino Unido, a “oprimida” Escócia teve direito a um parlamento. Ao escocês Tony Blair havia de suceder outro escocês, Gordon Brown e os ingleses, malandros, além de terem de aturar dois primeiros ministros escoceses, acatavam as leis do parlamento do Reino Unido feitas por ingleses, escoceses, galeses e irlandeses que valem na Inglaterra e no resto da União. O parlamento escocês, onde só cabem os habitantes da Escócia, decide se aquelas valem ali ou não. Isto é: os escoceses têm um parlamento próprio. Os ingleses não têm. Acatam assim as leis votadas por todos, ingleses e não ingleses. Os escoceses, não.
Os adeptos do sim, no referendo pela independência (que deveria chamar-se mais apropriadamente de secessão), mantiveram o bom senso e, sensíveis ao ridículo, sabendo bem que o petróleo, como o Inferno, está cheio de boas intenções, decidiram não chamar ao debate o fantasma de William Wallace, celebrizado no Braveheart. Já os comentadores portugueses, na sua sanha opinativa e em defesa dos povos oprimidos, entre dois goles de um puro malte fabricado na república Dominicana, foram buscar o Mel Gibson e o Rob Roy, o Zé do Telhado lá do sítio, para falarem em nome dos escoceses oprimidos pelos ingleses filhos da pxxx. Os Escoceses, não se esqueçam, são aqueles que têm um parlamento próprio enquanto que os Ingleses não têm parlamento nenhum e acatam as leis votadas pelos escoceses no parlamento comum.
Eu estou-me nas tintas para os escoceses e para os ingleses mas invejo-lhes contudo o bom senso. A estupidez viajou democrática e generosamente entre a esquerda e a direita portuguesas e pouco faltou para que os comentadores pintassem a cara à moda dos Pictos, o que me põe a pensar que bom seria ser escocês, não fosse aquela parvoíce de andar de saias…! Afinal a bandeira da Escócia é igual à do Afonso Henriques não fosse a rotação de 1/8 de volta, o que lhes dá o mesmo direito que aos galegos, que também tocam gaitinhas, de se juntarem a nós e nós a eles!
Ficamos agora de pausa aguardando a novela catalã. Gaudi, o profeta de Barcelona, sabedor da estupidez que por aí grassa e antes que lhe estragassem a obra, construiu a sua basílica com torres que se confundem com minaretes, pelo que é meio caminho andado.
Um dia destes faço-me madeirense e ponho-me a gritar contra a república colonialista. Assim como assim sou tão africano como eles e as bananas servem para comer enquanto que o petróleo não!


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

NAS TARDES SERENAS DO OUTONO FAZ-SE MARMELADA

 

Em chegando o Outono sabe bem o aconchego dos marmelos e digam o que disserem a única, a verdadeira, a mais gostosa, é a marmelada de Odivelas. Já o sabia D. Dinis que gostava de rumar àqueles outeiros por a achar melhor que a feita por Dona Isabel que lhe dizia: Ide vê-las, senhor, ide vê-las – referindo-se às moças que a faziam tão bem feita. Por causa disso ficou o sítio conhecido por Odivelas, deturpação do povo às palavras da santa rainha e ainda hoje, para quem vem de Lisboa, é forçoso que passe pela estrada do Lumiar que a bondosa esposa do rei poeta mandava alumiar para que não se perdesse. Tudo são estórias mas o certo é que o fogoso rei ali se fez sepultar, vá-se lá saber porquê.

O que tem a ver Odivelas com as Caldas, perguntam-me, para me pôr aqui a tecer loas à sua marmelada? Pois foi aqui, nas santas águas das termas, que se tratou D. João V dos excessos de tanta marmelada comida das mãos de madre Paula, abadessa generosa do mosteiro de Odivelas que o rei, quando príncipe, visitava amiúde. E é por isso que aqui vos darei o privilégio de conhecer a única e verdadeira receita da marmelada tal como a contou a última freira do mosteiro, extinto pelo mata-frades Joaquim António de Aguiar que preferia o caldeiro dos militares aos marmelos das noviças. Deitemos então a mão aos marmelos.

Estava uma tarde doce e suave de Outono quando madre Paula disse ao príncipe: - Joãozinho quinto, vamos fazer marmelada? - O que fez o príncipe dar um salto para se atirar de pronto aos marmelos. Mas madre Paula fê-lo recuar pois isto de marmelos tem preceito. Que não eram como aquelas gamboas enormes da corte, que mais pareciam de silicone e já maduras. E madre Paula mostrava-lhe a suave penugem que cobre a pele dos verdadeiros marmelos, ainda um pouco verdes.

É doloroso relatar o que se viu, mas obriga-me a honestidade a fazê-lo: os queixais do príncipe quedaram-se tombados até ao peito, e a baba que lhe aparecia na comissura dos lábios era um espectáculo triste de se ver num futuro rei.

Madre Paula ensinou-lhe então a desbrugar os marmelos e a pô-los logo em água fria para arrefecer ardores não fosse o entusiasmo ir longe demais antes do tempo certo. Só depois de descascadinhos e limpos de caroços se coziam então em lume sempre brando que isto de preliminares quanto mais devagar melhor.

Depois de bem cozidos, teve então o príncipe autorização para amassar tudo muito bem, podendo usar a colher de pau e a peneira. O leitor fica autorizado ao passe-vite e à varinha mágica, ao chicote, cinto de ligas e salto agulha, e todo o catálogo de BDSM, desde que fique tudo muito bem amassado que agora é a loucura total. E mais não escrevo que o pudor tolhe-me a pena.

Acalmados então os ânimos, começam as doçuras. Para cada quilo de massa pôs madre Paula dois quilos de açúcar, que isto de reis e conventos é outra coisa e o príncipe era generoso. Um exagero, dir-me-ão, mas era assim no tempo de D. João V, quando ainda tínhamos os brasis e por isso saía a marmelada branquinha ao gosto da época. Porquê pôr um quando se podem pôr dois, foi sempre o mote do príncipe como se viu nos dois carrilhões de Mafra que é hoje causa de diabetes no orçamento da cultura. Hoje, com a moda dos bronzeados, admite-se doçura igual à badalhoquice da amassadura, cortando-se o açúcar quase pela metade, ficando a marmelada assim a modos que mais afogueada.

E agora é que é preciso paciência, caro leitor, mas a marmelada ou é feita como deve ser, ou então contente-se com uma rapidinha ao supermercado para a compra da compota.

Prepara-se um banho de doçura, na proporção de 2.5 dl de água por cada quilo de açúcar e levanta-se fervura até atingir o ponto de rebuçado. E aqui terá o leitor de estar atento que o açúcar, como as mulheres, é enganador. Pensando que está tudo no ponto, arrisca-se a uma recusa que azeda a marmelada. Saberá que o ponto foi atingido quando, no meio dos gemidos da canseira, deitar uma bola da pasta do açúcar numa pinga de água fria e aquela coalhar.

Agora pare um pouco, tire do lume e junte ao açúcar a massa bem desfeita com a colher e mexa, mexa muito bem. Volta então ao lume até levantar ampolas, mas sem magoar e sem queimar. Nesse momento pode então apagar a chama do lume mas continue a bater, a bater, até esfriar.

Gostava a madre Paula, depois de esfriar, de deitar a marmelada assim feita em pratos rasos para que secasse, deixando o açúcar cristalizar como ao amor de Stendhal. Isto porque o príncipe porcalhão gostava de a cortar em cubinhos e comê-la à mão. Nós que somos civilizados, deitamo-la em taças e servimos a barrar o pão.

Não esqueça: nada de gamboas, mas marmelos ainda verdes com penugem agradável ao tacto. Depois, muita paciência e doçura. Se os marmelos forem já maduros, não desanime, porque então já a vontade de comer vai dispensando alguma da doçura e sempre pode aventurar-se a uma tarte ou mesmo um strudel. No fim reze uma Ave Maria e um Padre Nosso pelas almas da madre Paula e de D. João V, para que não digam que somos mal agradecidos.

Aos mais jovens, se não sabem o que são marmelos e não perceberam nada da receita, perguntem aos avós. E treinem, que o saber nasce da experiência.



sábado, 6 de setembro de 2014

ESTOU EM CHOQUE

 
Ontem a justiça portuguesa condenou trinta e seis cidadãos portugueses. Não vou comentar os contornos do caso porque não os conheço, nem vou julgar o mérito dessas condenações. O que me motivou a vir aqui comentar foi o desabafo angustiado de um dos condenados. À porta do tribunal afirmou que estava em choque! Confesso que eu também. Em choque por saber que um antigo deputado e ministro do meu país não tenha sabido estar à altura dos cargos que desempenhou e apareça agora condenado. Repito para mim mesmo que devo ser benevolente e que devo repetir a frase d’Aquele que devia orientar os meus actos e pensamentos: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. Apesar de tudo o desabafo sai-me das profundezas do coração: Estou em choque!
O cidadão em questão foi agraciado em 2005, pelo então presidente da república (não, não foi o Cavaco), com a Grã-cruz da ordem do Infante D. Henrique. Não cometerei a injustiça de lançar sombras sobre esta decisão do Sr. Presidente da República de então. Os factos pelos quais aquele cidadão foi agora acusado e condenado são posteriores à condecoração.
A atribuição daquela honra tem como finalidade “…distinguir quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”. Fui ler a biografia do condecorado anterior a 2005: Um curso abandonado, uma pós-graduação sem licenciatura, deputado, vereador, ministro, director geral, algumas sombras de irregularidades no exercício dos cargos públicos e é tudo. O suficiente para o Sr. Presidente da República de então pensar que estes serviços foram relevantes para a Pátria e expressam a cultura portuguesa, a história do país e os seus valores.
Confesso que estou em choque!


domingo, 31 de agosto de 2014

OS POLÍTICOS E A ARTE DE PODAR TODO O BUXO

De médico e de louco todos temos um pouco, já os políticos conseguem abarcar toda e qualquer profissão, arte ou técnica. Quando Malhoa pintou o seu quadro que intitulamos de “O Fado”, e que alguns crêem ver nele uma homenagem do pintor à canção popular de Lisboa apesar da realidade canalha ali retratada, sofreu não só a censura do fadista Amâncio como do próprio rei Manuel II.
Do Amâncio percebemos: O homem não gostava de ver o pintor desnudar os ombros e os seios da Adelaide, e o ciúme é democrático. Chega a todos. Quanto ao rei, este não gostou de ver os braços da Adelaide da Facada cobertos de tatuagens (a malta de agora não inventou nada) e obrigou o pintor a apagá-las excepto uma muito pequena que mal se vê. Isto cinquenta anos após “Le dejeuner sur l’herb” do Manet. Diga-se em abono da verdade que a mulher nua do quadro de Manet não tem nenhuma tatuagem que se veja pelo que não havia razão para Malhoa ser assim tão ousado, que raio!
Felizmente hoje os políticos já não se metem com mulheres de braços nus (nos quadros, evidentemente). Agora contentam-se com os jardins de buxo. Os jardineiros de Lisboa deixaram ao desmazelo os canteiros da praça do Império. O Zé Fernandes de Lisboa, em vez de repreender a empresa de jardineiros contratada, resolve eliminar os canteiros. Ouviu o parecer de técnicos? Do povo? Da Câmara ou da Assembleia? Para quê? Ele é o Zé que faz falta a Lisboa. Depois da fortuna que a Câmara, por sua culpa, teve de pagar pela paragem do túnel do Marquês, o infalível vereador poupa agora nos canteiros de buxo.
Sendo o quadro do Malhoa propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, esperemos que o inefável Zé não se lembra de mandar apagá-lo com o argumento que aquilo já não representa a canção da cidade, agora que virou património da humanidade. Ser a canção de Lisboa representada por uma prostituta com um chulo de nome Amâncio, não faz falta nenhuma...

sábado, 23 de agosto de 2014

O SILÊNCIO DO ISLÃO


           Quando Bento XVI, na sua aula em Ratisbona, citou o imperador Bizantino Manuel II, Paleólogo, esqueceu-se que na Pérsia já não havia homens eruditos como o que discutia com Manuel II.
            Que os muçulmanos tivessem ficado melindrados com a aula de Bento XVI compreende-se, embora deixassem a descoberto a fragilidade actual do pensamento das elites intelectuais islâmicas que, no meio do ruído gerado, perderam uma oportunidade para se fazerem ouvir. Quando estudantes e professores da Universidade La Sapienza recusaram ouvir Bento XVI demonstraram à saciedade que quer o Ocidente quer o Oriente não estavam preparados para o brilho e grandeza do pensamento de Ratzinger. A luz do discurso do Papa punha a nu a pequenez das elites intelectuais do mundo actual, e isso era-lhes insuportável.
            Nunca como hoje o Islão precisou tanto do pensamento brilhante dos seus intelectuais medievais. Se é porque os jornais calam o pensamento actual dos intelectuais islâmicos ou porque esse pensamento não existe, não sei, mas o silêncio do Islão perante os crimes que em seu nome se fazem é ensurdecedor.
            Face a esse silêncio resta trazer à memória as palavras de ouro de um do maiores pensadores ibéricos, um muçulmano do século XII, Ibn al Arabi, nascido em Múrcia, na actual Espanha e que um dia visitou Lisboa para se encontrar com Afonso Henriques, outro iniciado.
            Ibn al Arabi foi um dos maiores, senão o maior, mestres Sufi da península ibérica e encontramos ecos dele na poesia de São João da Cruz e no misticismo de Santa Teresa de Ávila. Ouçamos então o mestre:

“O meu coração abriu-se a todas as formas: é pastagem de gazelas, claustro do monge, templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o sagrado livro do Corão. O Amor é a minha religião; qualquer que seja a direcção da caravana, a religião do Amor será sempre o meu credo e a minha fé.”

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Crónicas Gastronómicas V - OS CREPES DA SUZETE

 

Os famosos crepes suzette, invenção do grande chefe parisiense Escoffier fazem-se exactamente como qualquer outro crepe com uma ligeira diferença: o aroma a laranjas. Deixam-se cair do alto por uma peneira 110 g de farinha com uma pitada de sal. Faz-se um buraco no centro e deitam-se dois ovos inteiros e bate-se tudo muito bem com uma vara de arames. A seguir vai-se juntando lentamente uma mistura de 75 ml de água com 200 ml de leite, enquanto se mexe sempre muito bem. Quando tiver um creme fino, derreta 50 g de manteiga numa frigideira. Tire 2 colheres da manteiga e misture muito bem à massa. A restante manteiga reserve para lubrificação da frigideira que se fará com papel de cozinha. Termine a massa com uma colher de sopa de açúcar e a raspa de uma laranja média.

Numa frigideira de 18 cm de diâmetro bem quente vá deitando pequenas porções de massa. À medida que vão cozinhando, vire os crepes com cuidado ou então tenha a coragem de os virar atirando-os ao ar se não estiver ninguém a ver. Dá para cerca de 15 a 16 crepes. Não esqueça de ir lubrificando a frigideira com papel ensopado em manteiga.

Pergunta o amável leitor ou leitora a razão da fama desta sobremesa. É que os crepes foram cozinhados em honra de Eduardo VII que já tinha entrado na crónica das Sandes de Alexandra, lembram-se? Tudo aconteceu em Paris onde o então príncipe de Gales ia com a mesma frequência que uma beata vai à missa cantada por padre jovem.

Paris vale bem uma missa, por causa dos crepes e não só, como dizia o rei de Navarra que lá se deixou assassinar sem dar um grito, porque aquilo era gente de outra têmpera.Por se tratar de uma crónica de culinária e de um blogue lido por famílias, não contarei aqui como se divertia o príncipe e as filles de joie numa banheira em forma de cisne coberta até acima com champagne no famoso Le Chabanais. Também não ouvirão contar que a famosa casa visitada por Mae West, Humphrey Bogart e Gary Grant, tinha uma cama encimada com o brasão da casa de Windsor. Muito menos me atreverei a falar da famosa cadeira, ou mais apropriadamente siege d’amour, que o bordel, perdão, maison de tolerance, mandara construir propositadamente para as façanhas acrobático/amorosas do príncipe, que fariam corar de vergonha as páginas do Kama Sutra.

Se o príncipe gostava de se divertir, não gostava menos de comer e Escoffier lembrou-se de uma manteiga aromatizada com laranja para os singelos crepes. Misture 150 ml de sumo de laranja, raspa de uma laranja média, sumo e raspa de um limão pequeno, 1 colher de sopa de açúcar e 3 colheres de sopa de um bom cognac, que isto é receita de príncipes. Na frigideira derreta 50 g de manteiga sem sal, deite com gentileza a mistura de sumos e deixe aquecer lentamente. Vá pondo os crepes, um de cada vez, sobre esta mistura para os aquecer e ensopar, vire-os ao meio e outra vez até ficar um triângulo. Encoste o crepe à borda e vire a frigideira para que escorra o líquido para a outra borda. Retire e coloque o crepe no prato aquecido. Repita para cada crepe.

Depois de todos os crepes estarem em seus pratos coloque-os na mesa. E agora, com o pensamento na banheira cheia de champagne e naquela cadeira que o príncipe usava, seja ousado/a. Retire a frigideira do lume, deite-lhe dentro mais um pouco de conhaque e leve de novo ao lume a aquecer o álcool. Vire um pouco a frigideira de modo a pegar fogo ao brandy e assim, com tudo a arder e com o Credo na boca, vá deitando as labaredas de fogo sobre os crepes em seus pratos. Mas pelo amor de Deus não se queime, que isto de bordéis e flambés o importante é a gente não se queimar.

Tinha o príncipe enorme bom gosto, valha-nos isso, pelo que ficou horrorizado quando o chef quis chamar à sobremesa: Crepes Eduardo! Para sorte da humanidade em geral, e dos crepes em particular, passava no local uma jovem e bonita vendedora de violetas de nome Suzette...!

Champagne, manteiga a lubrificar, siéges d’amour, príncipes, flambés, e violetas, e mais as vendedoras delas… olhem, eu vou ali comer um gelado e já volto, que a Suzete está a fazer-me sinais.