quarta-feira, 6 de maio de 2015

A PROFESSORA E O ALUNO, OU FREUD EXPLICADO AOS TOTÓS


Quando Zeus, transformado em águia, raptou o jovem Ganimedes, tornou o acto pederasta num modelo de beleza e de amor erótico para a literatura, escultura e pintura até ao dealbar dos nossos dias. E nem a música escapou quando Schubert cantou o poema que Goethe dedicou ao jovem. Se o deus podia...!
Todos os artistas retrataram a cena ora com sensualidade exuberante, ora contida, mas sempre idílica como a escultura de Fernandes de Sá no jardim da Cordoaria no Porto. Rembrandt, no entanto, já no século XVII, e em contracorrente, pintou o rapto como uma cena atroz: a águia escura e monstruosa e o pequeno pastor transformado em bebé que se mija aterrorizado quando elevado nos ares. Não faço ideia se quem encomendou a obra ao pintor holandês ficou satisfeito com o resultado pouco erótico, mas o facto é que Rembrandt expressou naquela obra os sentimentos do nosso tempo a propósito do abuso dos velhos sobre os novos.
Num mundo tão licencioso como o nosso, assustado com a própria liberalidade, que inventa listas que não evitarão os abusos sobre as crianças, há sempre o perigo de confundir afectos com “raptos”, e antes que acabemos todos, à americana, a acusar as próprias crianças de assédio, neste estapafúrdio caso da professora e do aluno convém lembrar que nem todos os adultos são águias, nem os adolescentes, Ganimedes mijões. Se nos pomos a imitar Rembrandt acabamos a borrar a pintura.

na imagem: "O rapto de Ganimedes" de Rembrandt, roubado daqui: 


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